quarta-feira, 24 de novembro de 2010

CORDEL : ANTONIO SILVINO, O REI DOS CANGACEIROS


ANTONIO SILVINO
o rei dos cangaceiros
Autor: Leandro Gomes de Barros

O povo me chama grande
E como de fato eu sou
Nunca governo venceu-me
Nunca civil me ganhou
Atrás de minha existência
Não foi um que cansou.

fazem 18 anos
Que não posso descansar
Tenho por profissão o crime
Lucro aquilo que tomar,
O governo às vezes dana-se
Porém que jeito há de dar?!

O governo diz que paga
Ao homem que me der fim,
Porém por todo dinheiro
Quem se atreve a vir a mim?
Nãoum que se atreva
A ganhar dinheiro assim.

homens na nossa terra
Mais ligeiros do que gato,
Porém conhece meu rifle
E sabe como eu me bato,
Puxa uma onça da furna,
Mas não me tira do mato.

Telegrafei ao governo
E ele recebeu,
Mandei-lhe dizer: doutor,
Cuide no que for seu,
A capital lhe pertence
Porém o estado é meu.

O padre José Paulino
Sabe o que ele agora fez?
Prendeu-me dois angaceiros,
Tinha outro preso fez três,
O governo precisou
Matou tudo de uma vez.

Porém deixe estar o padre,
Eu hei de lhe perguntar
Ele nunca cortou cana
Onde aprendeu a amarrar?
Os cangaceiros morreram
Mas ele tem que os pagar.

Depois ele não se queixe,
Dizendo que eu lhe fiz mal,
Eu chego na casa dele, 
Levo-lhe até o missal,
Faço da batina dele
Três mochilas para sal.

Um dos cabras que mataram,
Valia três Ferrabrás
Eu não dava-o por cem papas,
Nem quinhentos cardeais
Não dava-o por dez mil padres
Pois ele valia mais.

Mas mestre padre entendeu
Que ia acertadamente
Em pegar meus cangaceiros
E fazer deles presente,
Quem tiver pena que chore
Quem gostar fique contente.

Meus cangaceiros morreram
Mas ele morre também,
Eu queimando os pés aqui
Nem mesmo o diabo vem,
Eu não vou criar galinhas
Para dar capões a ninguém.

Tudo aqui já me conhece
Algum tolo inda peleja,
Eu sou bichão no governo
E sou trunfo na igreja.
Porque no lugar que passo
Todo mundo me festeja.

No norte tem quatro estados
À minha disposição,
Pernambuco e Paraíba
Dão-me toda distinção,
Rio-Grande e o Ceará
Me conhecem por patrão.

No Pilar da Paraíba
Eu fui juiz de direito,
No povoado - Sapé,
Fui intendente e prefeito,
E o pessoal dali
Ficou todo satisfeito.

Ali no entroncamento
Eu fui Vigário-Gral,
Em Santa Rita fui bispo,
Bem perto da capital,
Só não fui nada em Monteiro,
Devido a ser federal.

Porém tirando o Monteiro,
O resto mais todo é meu,
Aquilo eu faço de conta
Que foi meu pai que me deu
O governo mesmo diz:
Zele porque tudo é seu.

Na vila de Batalhão,
Eu servi de advogado,
Lá desmanchei um processo
Que estava bem enrascado,
Livrei três ou quatro presos
Sem responderem jurado.

Só não pude fazer nada
Foi na tal Santa Luzia.
Perdi lá uma eleição, 
A cousa que eu não queria,
Mas o velho rifão diz:
Roma não se fez n’um dia.

O padre José Paulino
Pensa que angu é mingau
Entende que sapo é peixe
E barata é bacurau
Pegue com chove e não molha,
Depois não se meta em pau.

Eu já encontrei um padre,
Recomendado de papa,
Tinha o pescoço de um touro,
Bom cupim para uma tapa,
Fomos às unhas e dentes,
Foi ver aquela garapa.

Quando o rechochudo viu
Que tinha se desgraçado,
Porque meu facão é forte,
Meu baço é muito pesado,
Disse: vôte, miserável,
Abancou logo veado.

Eu gritei-lhe: padre-mestre,
Me ouça de confissão.
Ele respondeu-me: dane-se
Eu lhe deixo a maldição,
Em mim só tinha uma coroa,
Você fez outra a facão.

Eu inda o deixei correr
Por ele ser sacerdote,
Para cobra só faltava
Enroscar-se e dar o bote,
Aonde ele foi vigário,
Quatro levaram chicote.

Foi tanto qu’eu disse a ele:
Padre não seja atrevido
Tire a peneira dos olhos,
Veja que está iludido,
Eu lhe respeito a coroa,
Porém não o pé do ouvido.

O velho padre Custódio,
Usurário, interesseiro,
Amaldiçoava quem desse
Rancho a qualquer cangaceiro,
Enterrou uma fortuna,
E eu sonhei com o dinheiro!...

Então fui na casa dele,
Disse, padre eu quero entrar,
Sonhei com dinheiro aqui!...
E preciso o arrancar,
Quero levá-lo na frente
Para o senhor me ensinar.

O padre fez uma cara,
Que só um touro agastado,
Jurou por tudo que havia,
Não ter dinheiro enterrado,
Eu lhe disse, padre-mestre,
Eu cá também sou passado.

Lance mão do cavador,
E vamos ver logo os cobres,
Esse dinheiro enterrado
Está fazendo falta aos pobres,
Usemos de caridade
Que são sentimentos nobres.

Dez contos de réis em ouro
Achemos lá n’um surrão,
Três contos de réis em prata
Achou-se n’outro caixão,
Eu disse: padre não chore,
Isso é produto do chão.

O padre ficou chorando
Eu disse a ele afinal
Padre mestre este dinheiro
Podia lhe fazer mal
Quando criasse ferrugem
Lhe desgraçava o quintal.

Ajuntei todos os pobres
Que tinham necessidade
Troquei ouro por papel
Haja esmola em quantidade
Não ficou pobre com fome
Ali naquela cidade.

O padre José Paulino
Acha que estou descansado
Queria fazer presente
Ao governo do Estado
Deu três cangaceiros meus
Sem nada lhe ter custado.

Um desses ditos rapazes,
Estava até tuberculoso,
O segundo era um asmático,
O terceiro era um leproso,
O urubu que o comeu
Deve estar bem receioso.

Tive nos meus cangaceiros
Um prejuízo danado,
Primeiro foi Rio-Preto,
Segundo Pilão-Deitado,
Os homens mais destemidos
Que tinham me acompanhado.

Eu juro pelo meu rifle,
Que o Padre José Paulino
Cai sempre na ratoeira
E paga o grosso e o fino,
Não há de casar mais homem,
Nem batizar mais menino.

Eu sempre gostei de padre
Tenho agora desgostado
Padre querer intervir
Em negócio do Estado?!...
Viaja sem o missal,
Mas leva o rifle encostado.

Em vez de estudar o meio
Para nos aconselhar,
Só quer saber com acerto,
Armar rifle e atirar,
Lá onde ele ordenou-se,
Só lhe ensinaram a brigar.

Depois ele não se queixe,
Nem diga que sou malvado,
Ele nunca assentou praça
Como pode ser soldado?
Não tem razão de queixar-se,
Se tiver mau resultado.

Quatro estados reunidos
Tratam de me perseguir,
Julgam que não devo ter
O direito de existir,
Porém enquanto houver mato,
Eu posso me escapulir.

Eu ganhando essas serras,
Não temo alguém me pegar
Ainda sendo um que pegue,
Uma piaba no mar,
Um veado em mata virgem
E uma mosca no ar.

Eu já sei como se passa
Cinco dias sem comer,
Quatro noites sem dormir, 
Um mês sem água beber,
Conheço as furnas onde durmo
Uma noite se chover.

Uma semana de fome,
Não me faz precipitar,
Mato cinco ou seis calangos
Boto no sol a secar,
Quatro ou cinco lagartixas,
Dão muito bem um jantar.

Eu passei mais de um mês
Numa montanha escondido,
Um rapaz meu companheiro
Foi pela onça comido,
Por essa também
Eu fui muito perseguido.

Era um lugar esquisito,
Nem passarinho cantava!...
Apenas à meia noite
Uma coruja piava,
Então uma grande onça,
De mim não se descuidava.

Havia muito mocós,
Eu não podia os matar,
Andava tropa na serra
Dia e noite a me caçar,
No estampido do tiro
Era fácil alguém me achar.

Passava-se uma semana
Que nada ali eu comia,
Eu matava algum calangro
Que por perto aparecia
Botava-os na pedra quente
Quando secava eu comia.

Quando apertava-me a sede
Pegava a croa de frade
Tirava o miolo dela
Chupava aquela umidade
Lá eu conheci o peso
Da mão da necessidade.

Um dia que a tropa andava
Na serra me procurando
Viram que um grande tigre,
Estava em frente os emboscando
Um dos oficiais disse:
Estamos nos arriscando.

E o Antonio Silvino
Não anda neste lugar,
Se ele andassem, aquela onça
Havia de se espantar,
Eu estava perto deles, 
Ouvindo tudo falar.

Ali desceu toda a tropa,
Não demoraram um momento,
Um soldado que trazia
Um saco de mantimento,
Por minha felicidade
Deixou-o por esquecimento.

Eu estava dentro do mato,
Vi quando a tropa desceu
O tigre soltou um urro,
Que o tenente estremeceu
Até a borracha d’água
Uma das praças perdeu.

Quando eu vi que a tropa ia
Já n’uma grande lonjura,
Fui, apanhei a mochila,
Achei carne e rapadura,
Farinha queijo e café,
Aí chegou-me a fartura.

Achei a borracha d’água
Matei a sede que tinha,
A carne já estava assada,
Fiz um pirão de farinha
Enchi a barriga e disse:
Deus te dê fortuna, oncinha.

Porque a tua presença,
Fez toda a força ir embora, 
O ronco que tu soltasses,
encheu-me a barriga agora,
Eu com a sede que estava,
Não durava meia hora.

E é agora o que faço,
Havendo perseguição,
Procuro uma gruta assim
E lá faço habitação,
Só levo lá, um, dous rifles
E o saco de munição.

Me mudo para uma furna
Que ninguém sabe onde é,
A furna tem meia légua
Marcando de vante a ré,
A onça chega na boca
Mas dentro não põe o pé.

A onça conhece a furna,
Desde a entrada à saída
Porém qual é essa fera
Que não tem amor à vida?
Uma onça parte assim,
Se vendo quase perdida!...

Quando eu deixar de existir
Ninguém fica em meu lugar,
Ainda que eu deixe filho,
Ele não pode ficar,
Porque a um pai como eu
Filho não pode puxar.

Pode ter muita coragem
Ser bem ligeiro e valente,
Mas vamos ver suporta
Passar três dias doente,
Com sede de estalar beiço
E fome de serrar dente.

Se não tiver natureza
De comer calango cru,
Passe um mês sem beber água
Chupando mandacaru,
Dormir em furna de pedra
Onde veja tatu.

Não podendo fazer isso,
Nem pense em ser cangaceiro,
Que é como um cavalo magro
Quando cai no atoleiro,
Ou um boi estropiado
Perseguido do vaqueiro.

Há de ouvir como cachorro,
Ter faro como veado,
Ser mais sutil do que onça,
Maldoso e desconfiado,
Respeitar bem as famílias,
Comer com muito cuidado.

Andar em qualquer lugar
Como quem está no perigo,
Se for chefe de algum grupo
Ninguém dormirá consigo,
O próprio irmão que tiver,
O tenha como inimigo.

O cangaceiro sagaz
Não se confia em ninguém,
Não diz para onde vai,
Nem ao próprio pai se tem,
Se exercitar bem nas armas,
Pular muito e correr bem.

Em meu grupo tem entrado
Cabra de muita coragem,
Mas acha logo o perigo
E encontra a desvantagem
Foge do meio do caminho,
Não bota o meio da viagem.

Porque andar vinte léguas
Isso não é brincadeira,
E romper mato fechado,
Subir por pedra e ladeira,
Como eu tenho feito,
Não é cousa maneira.

Pegar cobra como eu pego
Quando ela quer me morder,
Cascavel com sete palmos,
se Deus o proteger,
Mas eu pego quatro ou cinco
E solto-a, deixo-a viver.

Que é para ela saber,
Que eu posso ser duro,
Eu conheço o passado,
Nele ficarei seguro,
Penso depois no presente
Previno logo o futuro.


terça-feira, 23 de novembro de 2010

QUEM NÃO PODE CANTAR SEJA FELIZ - Merlânio Maia

Inda ontem ao chamado da poesia
Decantei com os maiores do Universo
Com Leandro de Barros teci verso
E com Pinto cantei com alegria
Com Catulo chorei de nostalgia
Mas com Cego Aderaldo me refiz
E no canta-que-canta e diz-que-diz
Vislumbrei Castro Alves como um santo
Escutando as estórias que ora canto
Quem não pode cantar seja feliz

Vi Olavo Bilac escrevendo
Um soneto que decantava estrelas
Vi Boccage mirando para vê-las
Lá do alto Vinícius foi descendo
Guerra Junqueiro foi me envolvendo
E dizendo para meu grande espanto
Que poesia é uma forma de encanto
É o ingresso ao celeste país
Quem não pode cantar seja feliz
Escutando as estórias que ora canto

Zé da luz na cadeira a balançar
Declamava a mais pura e bela trova
O Formiga e o Cornélio davam prova
Que eram bons, no Galope a Beira Mar
Lourival e Marinho a glosar
E as violas continham tal verniz
Que brilhavam na luz de fino giz
E o trinado parecia acalanto
Escutando as estórias que ora canto
Quem não pode cantar seja feliz

Foi a noite mais bela dessa vida
Com milhares de poetas de além-cova
E ali, produziram-se as provas
Que a vida é infinita e incontida
E os poetas me deram acolhida
E essa noite eu vivi cheio de encanto
Quando aqui despertei verti meu pranto
Desejando voltar ao tal país
Quem não pode cantar seja feliz
Escutando as estórias que ora canto

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

UM ANO NOVO PAI DÉGUA! Autor: Merlânio Maia




UM ANO NOVO PAI DÉGUA!
Merlânio Maia

Desejo um ano porreta
Deus lhe dê o que quiser
Peleja, trabalho, treta,
Os carim duma mulher
Desarrede o negativo
Abufele o positivo
Tenha o horizonte por régua
Num tenha medo da vida
Tenha o céu como medida
E um sucesso sem trégua!

Macho véi, felicidade,
É pra se pegar de unha
Num aceite a falsidade
Que é lá que a maldade acunha
Num se agonie no camim
Nem permita o farnizim
Num esmoreça, seje macho!
Corra o mundo, ande légua
E até na baixa da égua
Que o buraco é mais embaixo!

Vá anotano os seus querê
Tudo o que você deseje
Dipendure onde se vê
Leia pra que num fraqueje!
Seja um cão chupano manga
Teja de terno ou de tanga
Nunca espere vá buscar
Persistência atrai sucesso
Que vai fazer seu progresso
Quando menos se esperar

No amor num se arrelie
Nem só fique arrodiano
Num bata fofo, se avie
Se avexe e faça um bom plano
Mas fique limpo na nota
Num pegue qualquer marmota
Nem viva de fulerage
Cachorro é quem pega peba
Num viva de mistureba
Nas grota da vadiage

Amor é uma corralinda
Mas num seje um farofêro
Num peça pinico ainda
Seja o galo no terrêro
Pastore que a hora chega
Gata gosta é de mantêga
Dê seu bote devagar
Mas dêxe as unhas de fora
Que o seu cabresto se tóra
Antes do ovo gorar!

Comece esse novo ano
Sem os erros do passado
Chô mundiça, esse é o seu plano!
Chame a sorte pro seu lado
Muche as orêia e rebole
No mato tudo que é mole!
Grite do alto do nordeste
- Eu sou herdeiro de Deus
Os terém dEle, são meus
Oxente, cabra da peste!

Agora sim, que tás forte,
Seje feliz dicumforça!
Nosso Sinhô sendo o norte
Brinque, dance, grite e torça
Nada há de lhe derrubar
Comece logo a sonhar
Com a Paz e nunca dê trégua
O seu poeta ainda diz:
CABRA VÉI, SEJE FELIZ,
E UM ANO NOVO PAI DÉGUA!

domingo, 1 de novembro de 2009

GRAÇAS AO SEGURO - por Merlânio Maia



Um advogado e um engenheiro estão pescando no Caribe. O advogado comenta:
- Estou aqui graças ao seguro, minha casa foi destruída num incêndio, o seguro pagou tudo.
- Que coincidência! - diz o engenheiro. - Minha casa foi destruída num terremoto e o seguro pagou tudo.
O advogado olha intrigado para o engenheiro e pergunta:
- Como você faz para provocar um terremoto?

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

O ERRO DA VENDEDORA - Chico Pedrosa/PB




O ERRO DA VENDEDORA
(Chico Pedrosa)

O engano é uma falha
Difícil de reverter
Por ele tem muita gente
Pagando sem merecer
Quantos pobres inocentes
Tidos como delinquentes
Vivem a se lastimar
Pois se errar fosse humano
Quem cometesse um engano
Não deveria pagar.

Um estudante entrou numa
Loja especializada
Para comprar um presente
Para a sua namorada
Que estava noutra cidade
Depois de olhar à vontade
Os produtos da vitrine
Despertou-lhe o interesse
Por algo que aquecesse
Os dedos da mão de Aline

E um belíssimo par de luvas
Comprou para a namorada
E pediu a vendedora
Moça fina e educada
Que embalasse o presente
Inadivertidamente
No lugar da encomenda
A moça se atrapalhou
Invés das luvas botou
Uma calcinha de renda

E entregou para o moço
Que acabara de escrever
Um bilhete à namorada
Dizendo como fazer
Com aquele presentaço:
Minha querida um abraço
E beijos apaixonados
Meu amor esse presente
Vista pensando na gente
No dia dos namorados

Lhe comprei, porém, sabendo
Que você não vai usar
Porque quem nunca vestiu
É difícil acostumar
Eu mesmo queria ir
Pra lhe ajudar a vestir
Como eu fiz com a vendedora
E se nela eu gostei de ver
Eu imagino em você
Minha deusa encantadora!

Ela ainda garantiu
Que não mancha nem desbota
A mão entrando e saindo
Não rasga nem amarrota
Eu comprei frouxa na frente
Pra mão descer livremente
Na bainha dos torpedos
E sem precisar cortar
Lá dentro facilitar
O movimento dos dedos

Torço para que te sintas
Feliz com este presente
Que irá cobrir aquilo
Que pedirei brevemente
Cobrir aquilo que um dia
Quando eu não te conhecia
Não podia nem tocar
Hoje pego, beijo amasso,
Coço, massageio e faço
Você gemer e sonhar

Só uma coisa lhe peço
Depois que você usar
Coloque um pouco de talco
Que é pra desinfectar
E pra sair o mal cheiro
Feito isso o tempo inteiro
Pode usar e se exibir
Se perguntarem que deu
Pode dizer que fui eu:
Seu namorado Valdir

A pobre moça tomou
Aquilo por gozação
Num instante veio abaixo
Seu castelo de paixão
Despachou o namorado
Que até hoje o coitado
A culpa imerecedora
Carrega sem entender
E assim pagou sem dever
O ERRO DA VENDEDORA!

quinta-feira, 18 de junho de 2009

A DEFESA DA MULHER



A DEFESA DA MULHER
Merlânio Maia


Contam lá no meu sertão
Que uma jovem camponesa
Lutava no seu torrão
Pra levar comida a mesa
Com o seu machado se empenha
Fazer da árvore lenha
Com sua força juvenil
Quando num golpe mais forte
O seu machado erra o corte
E cai num profundo rio

Ela fica um tanto aflita
Pois só tem esse machado
Se ajoelha e diz contrita
- Ó Deus meu, Pai adorado,
Me socorre, meu Senhor
Ajuda-me, por favor!
E ao findar dessa oração
E esses clamores tão seus
A ela aparece Deus
E ela treme de emoção

E Deus mergulha no rio
Perigoso e agitado
Volta igual como saiu
E nas mãos traz um machado
Mas um machado de ouro
Reluzente qual tesouro
Que ele ostenta em sua mão
E pergunta do seu lado:
É este aqui o teu machado?
E ela lhe responde: É Não!

Deus mergulha novamente
E lhe traz outro machado
De diamantes reluzentes
De esmeraldas, cravejado
E pergunta: É este, então?
E ela lhe responde: Não!
Então Deus pula no rio
E sai com um machado bronco
Do cabo feito de tronco
E lhe pergunta gentil:

- É este aqui o teu machado?
E ela diz: Sim, meu Senhor,
Sou feliz por tê-lo achado!
E Deus cheio de esplendor
Lhe fala: - Tua atitude
Mostra que ainda há virtude
E foi bom ter te ajudado
És honesta e és decente
Por isso como presente
São teus esses três machados!

A mulher fica feliz
Agradece o seu presente
E a vida como a raiz
Se aprofunda e segue em frente
Certo dia o seu marido
Seguia o rio comprido
E o cavalo de repente
Se espanta e o joga no rio
E ela que a tudo assistiu
Se ajoelha penitente

E roga ali sem demora:
- Ó Deus, Tu és poderoso
Me socorre nesta hora
Salva o meu querido esposo
Deus veio logo que ouviu
E assim mergulhou no rio
E trouxe-lhe outro varão
Mais bonito e mais bem feito,
Que o seu marido. Perfeito!
O cabra era a tentação!

Deus lhe volta com a questão:
- É este aqui o teu marido?
E ela cheia de emoção
Diz: - Senhor, é o meu querido!
Deus enfurecido grita:
- Ousas me mentir gasguita
Eu que fiz a terra e o mar?
Infiel e sem vergonha!
E ela diz sem cerimônia:
- Senhor, eu posso explicar!

- Explica, infiel e inglória!
E ela diz: Ó meu Senhor,
Eu já conheço essa história
Das provas do vosso amor
Se eu renegasse este belo
Trarias lindo modelo
Pois sei que outro viria
E se eu negasse um por vez
Meu prêmio seria os três
E é pecado a TRIGAMIA!

E Deus Todo-complacente
Diz: - Tem lógica e tens razão
És astuta e boa crente
E tens belo o coração
E assim Deus foi convencido
Ela teve o seu marido
E a sua vida bendita
Moral da história é um conceito:
“A mulher mente de um jeito
Que até Deus acredita!”

sexta-feira, 22 de maio de 2009

A TRISTE FATALIDADE - Autor: Merlânio Maia

A TRISTE FATALIDADE

Autor: Merlânio Maia


Simeão de Pedro Bento

Juntou a família inteira

E firmou seu pensamento

De sumir de Catingueira

Pois a seca no sertão

Expulsava Simeão

Da sua terra natal

Assim juntou a família

E botou o pé na trilha

De São Paulo capital


Chegando na capital

Simeão se espantou

Tanto prédio vertical

No entanto ele encontrou

Uma oportunidade

Já buscava na cidade

Um emprego urgentemente

Pois se achava arranchado

Num barraquinho apertado

De um seu contraparente


Conseguiu se empregar

Depois de muito suplício

Seu trabalho era limpar

Vidraça de edifício

Passava dias inteiros

Junto de dois companheiros

Nos andaimes pendurado

Só assim pode alugar

Um barraco pra morar

Na favela do alagado


Mas o destino do pobre

Não cochila nem descansa

Não recompensa com cobre

Nem dá sombra ou água mansa

Mas quando quer maltratar

Faz no vigésimo andar

Como fez com Simeão

A barriga fez compressa

- Cumpade desça depressa

Num dá pra segurar não!


- Pois segure Simeão

Porque descer nem pensar!

- Ô rapaz faz isso não

Não consigo nem falar

Que o registro já fez bico

Arranje um balde, um penico

Ou desça no zum zum zum!

- Bata alí nessa janela

Peça ajuda a dona dela

Descer de jeito nenhum!


Bateu e gritou: Madama,

Me socorra, dê um jeito

Já tô me acabando em lama

E vou melar o rejeito

Logo a mulher protamente

Leva o Simeão valente

Pra que possa aliviar

E o pobre entra correndo

Que o monstro estava crescendo

E ele a gemer sem parar


Porém enquanto ele estava

Espremendo o fato seu

A corda que segurava

O andaime se rompeu

Os companheiros coitados

Lá de cima despencaram

Se esborrachando no chão

Simeão na tremedeira

Viu que aquela caganeira

Foi a sua salvação


No velório só falavam

Da triste fatalidade

E as famílias choravam

De desespero e saudade

A esposa de Simeão

Orava de gratidão

A Deus, por tê-lo poupado

Quando o dono da empresa

Trouxe uma grande surpresa

Pra família dos coitados


Isto nunca aconteceu

E a minha alma está presa

O meu coração doeu

Por isso a nossa empresa

Dará casas mobiliadas

Às famílias enlutadas

Pra alívio do sofrimento

E por dez anos de vida

Terão feira garantida

Pra amenizar o tormento


Cada uma das famílias

Ganhará vinte salários

E os órfãos filhos e filhas

Terão mais uns honorários

E até a faculdade

A educação de verdade

Eu continuarei pagando

E a mulher de Simeão

Diz metendo-lhe a mão:

E esse bonitão CAGANDO!!!


sexta-feira, 6 de junho de 2008

QUANDO ACABA A ELEIÇÃO - Autor: Merlânio Maia

QUANDO ACABA A ELEIÇÃO
Merlânio Maia

No período eleitoral
Candidato vira santo
Bota a cara em todo canto
Favela, sítio, hospital,
Tapera, escola, curral,
Velório, igreja, pensão,
Promete o céu e o chão
Jura descaradamente
Mas muda radicalmente
Quando acaba a eleição!

A teta é bem saborosa
Por isso, quem quer deixar?
O salário é um manjar
E a função é poderosa
A mala preta formosa
Enche os cofres e o colchão
Pois é na corrupção
Que o ganho se multiplica
E a politicalha enrica
Quando acaba a eleição!

O pobre eleitor coitado
Detém o real poder
De banir, cobrar, deter,
E excluir o candidato
Mas o político de fato
Encanta e ilude o povão
Como um piolho malsão
Retorna ao poder de novo
Pra sugar o nosso povo
Quando acaba a eleição!

Mau político tem prazer
De enganar quando promete
Setecentos vezes sete
Promete sem se conter
Sabe que vão esquecer
Nunca houve punição
Não há lei que diga não
Quem paga a promessa é o povo
E o peste vai rir de novo
Quando acaba a eleição!

Pobre do povo enganado
Trucidado em sua calma
Vende o voto e perde a alma
Paga caro ter votado
Não verá do combinado
Nem saúde, educação,
Nem infra-estuturação
Nem água, esgoto ou transporte,
Segurança só na sorte
Quando acaba a eleição!

O que se vê todo o dia
É a briga pelo poder
Quem mais tem mais faz pra ter
E haja dinheiro e folia
A bandidagem alicia
No caos da corrupção
A ética perde a razão
Ser honesto é coisa rara
Falta vergonha na cara,
Quando acaba a eleição!

E a gente sente vergonha
De ver chafurdando em lama
Símbolos que a gente ama
De forma torpe e bisonha
Mas a nação ainda sonha
Botar na grade o ladrão
E sanear a nação
Pra ter sua honra de novo
E o governo ser do povo
Quando acaba a eleição!

A SAGA DO HOMEM JUSTO - Autor: Merlânio Maia

A SAGA DO HOMEM JUSTO
Merlânio Maia

Contam que um homem justo
Pai de família honrado
Homem de bem exemplar
Caridoso e iluminado
Morreu pra Terra e ao subir
Sem saber aonde ir
Foi dar na porta do céu
Viu o anjo do protocolo
Com um computador no colo
Que o tratou como um réu

Sentou-se numa cadeira
E um computador ligou
Perguntou o nome do justo
Digitou e esperou
E haja a máquina demorar
E o anjo voltou a olhar
Assoprou, deu dois suspiros
Mas surpreso observou
Que a máquina detectou
Que o HD tinha vírus

Ouviu-se um agudo apito
E a tela ficou travada
O anjo ligou pro arcanjo
Que veio dar uma olhada:
-“Desligue logo o sistema
Que assim desfaz-se o problema!”
E o anjo fez esta ação
Mas quando redigitou
Não mais ali encontrou
O homem na relação

Mandou logo imprimir
A relação dos fiéis
E o nome daquele homem
Não constava nos papéis
E o anjo tristemente
Disse ao homem: - “Infelizmente
Não lhe encontrei no papel
E sem essa informação
Não posso dar permissão
Pra ninguém entrar no céu”

E o homem resignado
Pediu-lhe pra informar:
- “Mas, por favor, me adiante
Devo ir pra que lugar?”
O anjo coçou a cabeça
E disse: -“Não se aborreça
Vou dizer, mas me consterno
Tenho o dever de informar
Pois muito bem! Seu lugar
É lá embaixo, no inferno!”

Diante da serenidade
O anjo surpreendido
Ouviu do homem: - “Pois bem!
Onde o caminho escolhido?”
Disse o anjo: - “É só descer
Lá embaixo e dá pra ver
É uma caverna escura
Nem há controle na porta
Mas lá a sorte está morta
Pois a vida ali é dura!”

O homem logo se despede
Agradece e vai descendo
E enfim entra no inferno
E por ali vai vivendo
Depois de duas semanas
Chegam no céu caravanas
Com o séqüito de Satanás
Param na porta a gritar
Pedindo pra convocar
O santo arcanjo da paz

Diz o diabo: - “Assim não dá
Só pode ser terrorismo!!!”
O Arcanjo sai e pergunta:
- “Que é isto é anarquismo?”
E o diabo diz: - “Quem mandou
Me diga! Quem enviou
Aquele agente sagaz
Que desde a sua chegada
Está mudando a parada
Levando ao inferno a paz?”

“Valorizando a equipe
Divulgando a união
Já mudou tudo no inferno
Desfigurou, meu patrão
Ou vão tira-lo dali
Ou faço um inferno aqui!”
E o anjo diz: -“Tenha calma
Que eu resolvo o mitiê
Já formatei o HD
E sei quem é aquela alma!”

“Foi engano aquele homem
É puro e é muito justo!”
E assim mandou buscá-lo
E este veio a muito custo
Pois no inferno ele viu
O seu grande desafio
Do ambiente transformar
Já que os sentimentos seus
Sintonizavam com Deus
Em todo e qualquer lugar

O reino dos céus reside
No imo do ser humano
São palavras de Jesus
Resumindo o nosso plano
Quem faz de si esperança
Já é pleno de bonança
E há amor nos atos seus
Vibra em outra dimensão
É feliz e tem razão
Pois já é Filho de Deus