segunda-feira, 20 de maio de 2013

O AJUDANTE DA MORTE



O AJUDANTE DA MORTE
Poeta Merlânio Maia

Seu moço sou sertanejo
Nasci no alto sertão
Foi lá que cresci poeta
Lá cantei com o coração
Escravo da poesia
Sempre a levar alegria
Aonde posso cantar
Trago um baú de memórias
E vivo a contar histórias
Tão vivas do meu lugar

Lá em nóis tem um costume
De na hora de morrer
Convocar-se um Ajudante
E este tem o dever
De ajudar quem está morrendo
Com paciência ir dizendo
Toda reza espiritual
Dando ao “de cujos” seu norte
Pra se abraçar com a morte
No seu caminho final

Se o moribundo demora
A se decidir morrer
Fica num chove não molha
Nem morre nem quer viver
É esta a hora doída
Que a família convida
Um Ajudante infalível
Que vai ali convencer
O morrente pra morrer
O mais depressa possível

Pois bem, lá na minha terra
No vale do Piancó
Tinha um famoso ajudante
Chamado Zaqueu Socó
Um esquisito sujeito
Alto, magro e bem mal feito
Mãos grandes em pele e osso
Calado, semblante ossudo,
De olhar fundo, sisudo,
Um sujeito rude e grosso

Esse caboclo, seu moço
Nunca fazia amizade
Morava sempre sozinho
Quase fora da cidade
Ele nunca adoeceu
E sempre compareceu
Na hora extrema da sorte
Ali havia uma crença
Que ele era a presença
Ou um disfarce da morte

Por isso dizia o dito
No Vale do Piancó
Que não havia um ajudante
Igual a Zaqueu Socó
Sua fama era tamanha
Que se gabava da sanha
De nunca ter fracassado
Só de vê-lo o moribundo
Ou ia pro outro mundo
Ou já ficava curado

Era tanto que a família
Ao vê seu Socó chegar
Caía logo num choro
Dava dó da gente olhar
Era como se a morte
Do pobre tirasse a sorte
Liquidando aquele assunto
Pois seu Socó sem demora
Com menos de meia hora
Fazia dele um defunto

Desde menino eu ouvia
O povo dali falar
Quando via pela rua
Seu Zaqueu Socó passar
Eu já saía correndo
Com minhas pernas tremendo
Fugindo de qualquer jeito
Nunca fui de ter coragem
E com este personagem
Eu tinha o maior respeito

Um dia seu Zé Picanso
Do Sítio Morada Nova
Adoeceu, foi piorando
E ficou com o pé na cova
E eu fui lá fazer visita
E vi a família aflita
Socó no quarto trancou-se
Sozinho com o moribundo
E o seu filho Zé Raimundo
Me falou: - Pai acabou-se!

Eu fiquei perto da porta
E ouvi seu Zaqueu falar
Com a voz pastosa e grossa:
- Picanso, eu vim lhe ajudar
Ocê né mais desse mundo!
Ouvi um gemer profundo
E Socó meio afobado
Dizer: - Sorte a minha mão!
E agarre a de Santo Antão
Que lhe espera do outro lado!

Nisso eu vi uma zuada
Picanso gritou:- Pra trás!
Eu esperava era a morte
E não o seu capataz!
A porta estava trancada
Socó com a chave guardada
E sem nenhum exagero
Ouvi quebrar-se a janela
Picanso fugir por ela
No maior dos desesperos

Depois disso só o silêncio
Seu Socó a porta abriu
Falou: Picanso curou-se!
Disse isto e depois partiu
Saí dali assustado
Pois nunca tinha passado
O que passei nesta hora
Picanso pegou descendo
Ainda hoje está correndo
Largou tudo e foi se embora
  
Como eu não sou imortal
Eu também tive o meu dia
Adoeci gravemente
Nem vivia nem morria
Como naquele momento
Tão grande era o sofrimento
Que eu nada fazia só
Ouvi alguém sussurrar
- Pra o sofrimento acabar
Basta chamar Seu Socó

- Valhei-me Nossa Senhora!
Eu fiz o sinal da cruz
Um suador foi me tomando
Nisso eu chamei por Jesus
Fiz das tripas coração
Levantei de supetão
Tomei sopa nesse dia
Pulei numa perna só
Mas ver seu Zaqueu Socó
CRUZ CREDO! Virge Maria!!!

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

MENINO EU FUI POETA


MENINO EU FUI POETA
(Poeta Merlânio Maia)

EU FUI CRIANÇA SEM TER
PLAYSTATION, IPAD E IPOD,
IPHONE, TV... PRA QUÊ?
O QUE EU TINHA ERA UM BODE
BRINQUEI SOLTO NO TERREIRO
FUI NADADOR, FUI VAQUEIRO,
DE BILA FUI CAMPEÃO,
JOGUEI PIÃO NOS TERREIROS
CORUJA NOS TABULEIROS
FUI MENINO DO SERTÃO

TIVE SARAMPO E PAPEIRA
DORDÓI, BEXIGA E TERSOL
BEBI ÁGUA NA TORNEIRA
PESQUEI PEIXE NO ANZOL
BRINQUEI DE VACA DE OSSO
QUASE ME AFOGO NUM POÇO
BOLA DE MEIA EU JOGUEI
ATÉ CAÇEI TANAJURA
COM A BUNDA DE GORDURA
JÁ FUI MOLEQUE E FUI REI!

ANDEI DE JEGUE, NÃO NEGO,
TIVE UMA INFANCIA DO CÉU
FUI GUIA DE UM VELHO CEGO
UM POETA DE CORDEL
QUE ME ENSINOU VERSEJAR
COM AS PALAVRAS BRINCAR
E A VIDA FOI TÃO COMPLETA
FOI TÃO RICA A MENINICE
QUE UM DIA MÃE ME DISSE:
ESSE MEU FILHO É POETA!

E SELOU O MEU DESTINO
MEU OLHAR MAIS AGUÇOU
MEU CORAÇÃO DE MENINO
NUNCA MAIS MODIFICOU
E QUANDO A LUTA É MAIS FORTE
OU ENFRENTO A DOR E A MORTE
AQUELE MENINO EU VEJO
LEMBRO SUA VIDA COMPLETA
MENINO EU FUI POETA
UM POETA SERTANEJO!

quarta-feira, 18 de julho de 2012

POEMA NA HORA - MINHA TERRA


Minha terra tem um Cristo
Que abraça tudo o que há
Ali canta a juriti
Ali canta a sabiá
Quando eu estou bem distante
Como um caminheiro errante
Não esqueço o meu torrão
Às vezes choro! Ah! Saudade!
É quase uma vaidade
Ter nascido no Sertão!
(Poeta Merlânio Maia)

domingo, 8 de julho de 2012

RONALDO CUNHA LIMA - REALMENTE, INIMITÁVEL!


REALMENTE, INIMITÁVEL!
Merlânio Maia

Ronaldo Cunha Lima, INIMITÁVEL!
Soberbo, inigualável na magia
Que em versos suscitados é indomável
No trato co’a palavra é poesia

Político esmerado fez do estável
O progresso crescente a cada dia
E o seu sonho fez-se inalienável
De um tamanho que ao mundo contagia

De público e notório é um gigante
Do povo fez-se a tal força operante
Elevando-se além, qual sua rima...

Mas no seu coração de doce asceta
Pereniza-se o amor de ser poeta
Grande Vate: Ronaldo Cunha Lima!



terça-feira, 31 de janeiro de 2012

O DIABO DO CARNAVAL


O DIABO DO CARNAVAL 
Poeta Merlânio Maia 

Ninguém se engane ou se iluda 
Que em tempo de carnaval 
O "capirôto" se solta 
E a debandada é geral 
A cachaça dá o tom 
E a droga aumenta o som 
O povo perde o pudor 
Ninguém tem pena de nada 
E a multidão desvairada 
Bota o diabo no andor 

Na onda do "pula-pula" 
Com a "zuada" "truano"
Quem tá vestido se despe 
Fulano agarra sicrano 
Pois seja homem, ou mulher 
Venha de onde vier 
Que o sexo louco se faz 
Mulher com mulher se agarra 
Homem com homem na farra
Santo vira satanás 

Tem cabra que o ano inteiro 
Sonha com o carnaval 
E quando chega esse dia 
Sai da sua vida normal 
Muda o jeito empiriquita 
Bota um vestido de chita 
Pinta a boca de baton 
Sai rebolando e beijando 
Os outros homens cantando:
- Isso é que é carnaval bom! 


A história se repete 
Que a quebradeira é geral 
Tem gente que cai na dança 
Pensando em fazer o mal 
Roubo, furto e violência 
Nessa data é ocorrência 
Que nem polícia dá conta 
É o "ninguém é de ninguém!" 
Só chamego e xenhenhem! 
E ali a doideira apronta 

A bebida é consumida 
Como soro em hospital 
Se pudesse era na veia 
E a droga encontra um canal 
O batuque é louvação 
Desse reinado do cão 
Onde o doido mete os peito 
No passo desengonçado 
O certo é quem tá errado 
E o torto é quem tá direito 

É "caboquim" mascarado
E embriagado na rua 
É caboquinha aos pinote
Bebendo e ficando nua 
E o diabo até dança frevo 
Apalpa todo relevo 
No calor do "vuco-vuco" 
E é nesse esfrega-esfrega 
Que toda moral se entrega 
Num "ribuliço" maluco 

Ninguém pensa no amanhã 
Que é hoje que a coisa vai 
Tem pai que fica tam-tam 
Filho que na droga cai 
Na cinza da quarta-feira 
A ressaca é a companheira 
De um remorso infernal 
É imenso o prejuízo 
Desses que perdem o juízo 
Com o diabo do Carnaval! 

sábado, 24 de dezembro de 2011

ORAÇÃO NO DIA DE NATAL


ORAÇÃO NO DIA DE NATAL 
Merlânio Maia 

Senhor hoje é o teu Natal 
Todo o mundo comemora 
É tanta emoção agora 
Nascida dos dias teus 
Muitos cantam, muitos choram, 
Muitos bebem, muitos comem... 
Hoje o coração do homem 
Saúda o Filho de Deus 

Não mais a arena dos césares 
Não mais as perseguições 
Não mais as inquisições 
Não mais o medo dos teus 
Não mais tristes armadilhas 
Não mais a cruz infamante 
Não mais a morte aviltante 
Dos heróis cristãos de Deus 

2000 anos se passaram 
A dor ainda continua 
Os pedintes pela rua 
A fome matando assim 
O orgulho desenfreado 
Por poder, riqueza e fama 
Bem ao lado a dor reclama 
De todo esse mal - o fim! 

Tua canção tão sublime 
A voz doce duradoura 
Vai criando a manjedoura 
No coração do vivente 
A fraternidade chega 
Tira a chaga e vai ficando 
E ao mundo modificando 
Como o nascer da semente 

Ó Semeador divino 
O teu canto ainda ecoa 
Ensina, alegra e abençoa 
Enche o mundo de esperança 
E nos acorda depressa 
Pois o tempo urge agora 
Só o Evangelho aprimora 
Toda Bem aventurança 

Nós sabemos que a semente 
Que semeastes, Senhor, 
É o mais sublime amor 
Que frutifica bem mais 
Aquece, ampara, edifica, 
Desperta, educa e conduz 
Cada um de nós rumo a luz 
Pra que o mundo tenha paz 

É Natal, Senhor Jesus 
É o teu Natal de esplendor 
Rogamos que o teu amor 
Toque nossa alma afinal 
Para emprestarmos as mãos 
No socorro ante aos irmãos 
E assim de espíritos sãos 
Festejarmos teu Natal!