domingo, 13 de janeiro de 2019

O GOLPE DE ANA ROSA NO BARBA AZUL DO SERTÃO

Autor: Merlânio Maia

Quem de fato tem juízo
Não vai dar trela a mentira
Nem bulir com o egoísmo
Nem com orgulho, ou a ira
Mas um dos grandes defeitos
Que acontece aos eleitos
É a ganância e a ambição
Que esta ajunta todo vício
E joga no precipício
Todo incauto sem perdão

Pois bem, hoje conto a história
Do Barba Azul do Sertão
Foi Zeca de Chico Zuca
Nasceu pra sedução
Aonde mulher passasse
Ou que com ele cruzasse
Ele já atocaiava
Com a conversa maneira
Abrindo certa clareira
Seduzia e abocanhava

Mas nada sério queria
Era rico o afamado
Herdara do Chico Zuca
Muita riqueza e guardado
Muita terra e gado manso
Seus Neloris um avanço
De prêmios ganhou milhões
E sozinho triplicou
A fortuna que ganhou
Tinha tino pra cifrões

Tinha rede de farmácias,
Rede de supermercados,
Distribuidoras mil
Nesse nordeste sagrado
Mil postos de gasolina
De Formosa até Campina
Seu gado andava em suas terras
E ele mais se expandia
Pro Sul, Sudeste e seguia
Pois riqueza nunca encerra

Tinha fazenda no Acre,
Rondonia e no Pará
Criava Búfalo no Norte
Que infestava o Amapá
Minas de ouro e de prata,
Muito dinheiro na lata,
No banco e na consciência
Mas sem sorte com mulher
As seduzia e sequer
Tinha depois paciência

Coisa de admirar
Aonde Zeca punha a mão
Virava lucro e dinheiro
Era o Midas do Sertão
Mas o dinheiro somente
Deixa o cabra diferente
E dinheiro sem saúde
Não serve mais para nada
E o cabra segue a jornada
Mudando de atitude

Foi o caso de seu Zeca
O coração deu-lhe um tranco
Que quase que ele vai
Morar sob o túmulo branco
Mas conseguiu se salvar
E o médico foi lhe falar
Nesse dia torturante:
- É Zeca seu coração
Não tá prestando mais não
Agora só no transplante!

Ele então desesperou
Pois não tinha nem herdeiro
Pai e mãe já se passou
Seus filhos eram dinheiro
Mas Dr. Charles num instante
Disse: A fila de transplante
Já tem seu nome na espera
Peça a ajuda ao Pai do Céu
Que é dele esse papel
Pra lhe manter cá na esfera

Quem foi Zequinha na vida
Começou sentir saudade
Das mil e uma mulheres
Das farras em mil cidades
O Barba Azul do Sertão
Caiu numa solidão
Chega dá pena falar
Tanto bem acumulado
Para tudo quanto é lado
E a morte no calcanhar

Mas a vida dá mil voltas!
Na cidade de Formosa
Onde morava Zequinha
Também vivia Ana Rosa
No auge dos vinte anos
Com tanta ambição nos planos
Não suportava a pobreza
Soube daquela tragédia
E resolveu fazer média
Buscando ganhar nobreza

Passou a ir à Igreja
Na missa que Zeca ia
Ajudava ao Padre João
Cantava na liturgia
Fazia todo dever
Tudo pra Zeca lhe ver
Como se vê uma santa
E o padre já admirava
A irmã que ali chegava
Pra tarefa que era tanta

Era lindo aquele ser
De coração venenoso
O corpo era uma viola
Tinha os cabelos sedosos
Seios fartos, pele lisa,
Boca carnuda e precisa
Pescoço esguio e bem feito,
Cintura fina e o bumbum
Feitiço pra qualquer um
Perder compostura e jeito

A Igreja enchia de jovens
Na missa que Ana ia
Ficava gente lá fora
Na hora da liturgia
E Ana fazia a leitura
Da Igreja à Prefeitura
Enchia de gente em frente
Os maridos pra espiar
E as mulheres pra brigar
Por causa daquela crente

Por onde Ana passava
Os homens se perturbavam
O padre e até as beatas
Junto a ela ruborizavam
Mas Padre João muito atento
Disse: - Arrume um casamento
Você nasceu para o lar.
E Ana Rosa tão discreta
Com a armadilha completa
E o plano a funcionar

Um dia confessa ao Padre:
- Sinto tanta compaixão
Pelo caso de seu Zeca
É quase amor, Padre João!
E o padre caiu na treta
E foi tocar a retreta
Pra Zequinha em cor de giz:
- Não há esposa melhor
Nem com o coração maior
Case e seja bem feliz!

Zeca nem acreditou:
- Padre e se for armação?
O Padre disse: Não é!
Case com separação
De bens e depois verá
Ponho a mão no fogo já
Velará por noite e dia
Você está vivendo a esmo
Já que não tem ninguém mesmo
Viverão de alegria

Zeca com o coração fraco
Quase em dias de morrer
Resolveu casar com Ana
Se ela aceitasse viver
Sem festa, ou sociedade
Sem nem sair da cidade
Pra lhe amparar e cuidar
Pois sua crise era forte
E não queria com a morte
Sozinho se deparar

E assim mandou chamá-la
E ela chegou muito linda
Carinhosa, afetuosa
E bem mais cheirosa ainda
Falou do encantamento
Que findaria o tormento
Cuidando com devoção
E fez Zeca acreditar
E até com ela sonhar
No jardim do coração

E assim casaram-se os dois
Em singela cerimonia
E a nobreza lhe caia
Mais perfeita que se sonha
E ele pediu mil desculpas
Não consumar por sua culpa
O sonho da jovem esposa
Ele que era um cinquentão
Mas seu pobre coração
Em breve iria pra lousa

E Ana cuidava de Zeca
Como cuidava de si
O rei do Sertão agreste,
Do Brejo e do Cariri
Viu nela um anjo cuidando
E a ela estava amando
Com toda aquela lindeza
Que lhe trazia papinha
E do jardim a cozinha
Reinava a sua beleza

Mas Ana queria mais
Apressar seu passamento
Três anos eram demais
Começou doce tormento
Um dia Zeca a chamou
E ela se apresentou
Pra ele só de calcinha
Foi bomba no coração
E ele agarrou-se ao balão
De oxigênio que tinha

E ela disse: Meu amor
Sou assim, sua todinha!
E Zeca chupando o gás
E o oxigênio não vinha
E ela o beijou no rosto
E ele se encheu de desgosto
Sem revelar seu desejo
E ela ali se vestiu
E nessa hora ele viu
O perigo que é um beijo

E Ana aumentando a dose
Procurando algo no chão
Fazia de quatro pés
E haja dor no coração
Zeca quase a se acabar
E ela tudo a mostrar
Na minissaia curtinha
Às vezes de topless
E os peitos no sobe e desce
Quase matando Zequinha

Um dia ela veio nua
Surpreender o marido
Como um cavalo de índio
Seu olhar verde e enxerido
Sentou no colo de Zeca
Ele soltou a peteca
Do passamento que deu
Só acordou no outro dia
E por trás ela sorria
- “Quase que aconteceu!”

E assim foi o tormento
Agarrado no balão
De Oxigênio no máximo
Pra manter o coração
Mas Ana Rosa malvada
Sempre estava preparada
Para lhe surpreender
E a bicha era tão bonita
Que sua alma estava aflita
Pedindo até pra morrer

Um dia seu médico Charles
Chegou lá de supetão
E disse: Nós conseguimos
O seu novo coração
Colocaram Zeca e Ana
Numa UTI bacana
Que também é avião
Que logo depois seguia
Pra fazer a cirurgia
Transplantando o coração

A operação foi sucesso
Para desgosto de Ana
Diz Charles: É de um atleta
Que morreu esta semana
Sofreu trágico acidente
Com o coração excelente
Você vai ter vida em prosa!
Zeca não pensava em nada
Somente olhava a danada
Da sua esposa Ana Rosa

E foram remédios tantos
Com direito a quarentena
Mas na cabeça de Zeca
Só vinha a linda morena
A nudez daquele dia
O fez sentir a magia
Do coração de atleta
Mas sentia em Ana Rosa
Esvair-se verso e prosa
E foi ficando incompleta

E quanto mais melhorava
Mais Ana entristecia
E ele dizia: - Olha amor
Como a vida renascia
Fique feliz meu pitéu
Que a nossa lua de mel
Eu sonho em comemorar
Pois um coração que ama
Só sai de cima da cama
Quando a vontade passar

E ele já não aguentava
pois quando o povo saia
Ele pegava Ana Rosa
E as carícias que fazia
Beijava a linda na boca
E já com a cuca louca
Ela mandava parar:
- Amor o seu coração
Não está curado não
E pode tudo estragar!

Ana Rosa provocante
Logo logo se acalmou
Pois viu nele um jegue errante
O seu leão se soltou
Da jaula e até da corrente
E agora daqui pra frente
Nem sabia do final
Resolveu aguentar
Pra ninguém desconfiar
Do seu plano marginal

Faltando só quatro dias
O médico lhe liberou
E ao chegar no hotel
Zequinha já deu seu show
O seu problema real
Era maior que o normal
Na carência era Zecão
No começo delicado
Que ela viu seu estado
E agradou seu coração

Mas o problema de Zeca
Era igual ao cachaceiro
Se bebesse uma bicada
Se soltava o mês inteiro
Zeca era um compulsivo
Enquanto estivesse vivo
Era um ativo voraz
Seus olhares de suspiros
Babando feito vampiros
Como o jegue de DaPaz

O tirinete foi grande
E ela ficou destruída
Para ele ela era um parque
De diversão na subida
Quando esse cabra descia
Quase arrancava a polia
Com sua força abissal
E Ana pagou o boleto
Da ganancia em branco e preto
Naquele reino infernal

Era da cama pra sala,
Da sala para o sofá,
Do sofá para o banheiro,
Era pra lá e pra cá
Zeca morrendo de sede
Só no balanço da rede
Quebrando santo no andor
E ela pedia parada
E ele de alma obcecada:
- Meu amor eu quero amor!

Ana pode conhecer
Cada cerâmica que havia
Naquela bela suíte
Subia e depois descia
E aquele olhar de Zequinha
Da raposa pra galinha
Era de intimidar
E o Brasil de norte a sul
Na fama do Barba Azul
Ana pode comprovar

Graças a Deus chega o dia
De pegarem o avião
O corpo dela doía
Do litoral ao sertão
E Zequinha aperrado
Pra novo tarrabufado
Com sua linda Ana Rosa
Assim a moça aprendeu
Desde o dia que nasceu
Sua ambição pavorosa

O preço que Ana Rosa
Pagou com sua ambição
Foi tão grande e poderoso
Que esqueceu o bilhão
Então mal desembarcou
Disse: Zequinha acabou!
Quero a separação
Zequinha ali concordou
Mas sua fama aumentou
E até hoje ele reinou
O Barba Azul do Sertão!

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

O BARBEIRO DESASTRADO


O BARBEIRO DESASTRADO
Chico Pedrosa


TODO PROFISSIONAL
DE CERTA FORMA É CAPAZ
AQUELE QUE É AUTÊNTICO
DEPRESSA PELO QUE FAZ
TEM O RECONHECIMENTO
O QUE CAMINHA MAIS LENTO
CHEGA UM POUQUINHO ATRAZADO
MAS SE HOUVER PERSEVERANÇA
PACIENCIA E CONFANÇA
CHEGA AO LUGAR DESEJADO

PORÉM SE FOR APRESSADO
FAZ COMO NECO GRANJEIRO
QUE UM DIA CHEGOU NA RUA
DIZENDO QUE ERA BARBEIRO
UMA MALETA DE LADO
COM UM PINCEL DESENHADO
NA TAMPA DA DITA CUJA
E ESTAVA ESCRITO BARBEIRO
A DOMICILIO GRANJEIRO
DO SERROTE DA CORUJA

ALUGOU LOGO UMA CAA
PARA A BUDEGA E MORADA
POS NUM CANTO DE PAREDE
UMA CADEIRA ENFADADA
NUMA BANQUETA SEBENTA
ESPALHOU A FERRAMENTA
E DEBAIXO BOTOU UM POTE
E NA FRENTE DA MORADIA
ESCREVEU: BARBEARIA
OLHO DÁGUA DO SERROTE

QUANDO ERA DIA DE FEIRA
A BODEGA SE ENCHIA
TANTO DE GENTE DE LONGE
QUANTO DA PERIFERIA
UNS CMPRANDO, OUTROS PAGANDO,
UNS BEBENDO, OUTROS JOGANDO
DOMINÓ  E CARTEADO
E DA TESOURA DE NECO
TRECO TRECO TRECO TRECO
SÓ SE VIA O MASTIGADO

SEU NECO COMO PESSOA
NÃO EXISTIA MELHOR
AGORA COMO BARBEIRO
DE TODOS FOI O PIOR
IMPRUDENTE, DESLEIXADO,
MÃO PESADA, MAL CRIADO
E SEBOSO IGUAL O CÃO
COMPROMISSO COM A ARTE
NUNCA TEVE E NEM FEZ PARTE
DA SUA RELIGIÃO

NA CADEIRA DE TRABALHO
TINHA UM PREGO SALIENTE
PRA RASGAR FUNDOS DE CALÇAS
DE PENETRAS E CLIENTES
O PINCEL ERA DE PALHA
A TESOURA E A NAVALHA
AFIAVA NUM TAMANCO
E PRO ESPERA SENTAR
ATÉ SUA VEZ CHEGAR
TINHA UM TAMBORETE MANCO

QUANDO ERA ALGUÉM DE FORA
QUE VINHA SE BARBEAR
NECO GRANJERO FAZIA
TUDO PARA LHE AGRADAR
PERGUNTAVA DE ONDE VINHA
O QUE FAZIA E SE TINHA
PRESA DE SER ATENDIDO
PREPARAVA O AMBIENTE
ATÉ DEIXAR O CLIENTE
DE CERTA FORMA ENVOLVIDO

PARA PREPARAR O CREME
TINHA RASPA DE SABÃO
MISTURAVA NUMA CUIA
DA MULHER CATAR FEIJÃO
COM ÁGUA SUJA DA CALHA
PEGAVA UM PINCEL DE PALHA
MEXIA ATÉ FICAR QUENTE
E SEM HIGIENE NENHUMA
COBRIA COM AQUELA ESPUMA
O ROSTO DO SEU CLIENTE

BATIA A MÃO A NAVALHA
E DIZIA: AGORA FALE
O FREGUÊS ABRIA A BOCA
ELE DIZIA: SE CALE
NÃO PRECISA SE ZANGAR
SÓ MANDEI VOCÊ FALAR
PARA  VER ONDE É A BOCA
E FAZER TUDO DIREITINHO
PRA NÃO CORTQR SEUS BEIÇINHOS
COM ESTA NAVALHA LOUCA

AQUELA NAVALHA CEGA
ENQUANTO O PELO ARRANCAVA
O PORO FICAVA ABERTO
E POR ELE O SANGUE JORRAVA
MUITAS VEZES O COITADO
AO SAIR ERA OBRIGADO
A PROCURAR O HOSPITAL
LÁ CHEGANDO O ENFERMEIRO
PERGUNTAVA AO FORASTEIRO
VEM DO SEU NECO GRANJEIRO
OU BRIGOU COM MARGINAL?

NEM PRECISAVA O DOENTE
RESPONDER POR QUE ALI
OS ENFERMEIROS DIZIAM
SAIU DE LÁ VEM PRA QUI
OS QUE SÃO ACOSTUMADOS
POR ESTAREM CALEJADOS
PENSAM QUE AQUILO É NORMAL
PORÉM OS QUE VEM DE FORA
NENHUM DELES ATÉ AGORA
SE LIVROU DO HOSPITAL

UM DIA ENTROU NO SALÃO
SEM ESCONDER SUA PERDA
UM CIDADÃO ELEGANTE
FALTANDO A ORELHA ESQUERDA
FALANDO MUITO EDUCADO
PEDIU PRA SER BARBEADO
SEU NECO DISSE: POIS NÃO!
MEXEU A CUIA DE ESPUMA
DESPEJOU, FEZ UMA RUMA
NO ROSTO DO CIDADÃO

PEGOU A SANTA NAVALHA
QUE NEM SEQUER AMOLOU
POS O POLEGAR ESQUERDO
NA COSTELETA E PUXOU
COM TANTA IGNORANCIA
QUE O SANGUE ACOMPANHOU
QUANDO O FREGUÊS RECLAMOU
SABEM O QUE ELE FEZ?
INVES DE PEDIR DESCULPA
PELA SUA ESTUPIDEZ?

NA MAIOR CARA DE PAU
OLHANDO PARA O FREGUÊS
DISSE NUM TOM DE GRACEJO
SENHOR, PELO O QUE VEJO
JÁ TEVE AQUI OUTRA VEZ

O VIAJANTE LHE DISSE
NUNCA VIM NESSE LUGAR
FOI O RESPEITO AO TRABALHO
QUE HOJE ME FEZ ENTRAR
NA SUA BARBEARIA
AONDE EU JÁ SABIA
QUE NÃO IA ME DAR BEM
PORTANTO MEU CAMARADA
ESSA ORELHA DECEPADA
FOI NUM DESASTRE DE TREM

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

O FUXICO

O fuxico é do mal, currixiado
Mexerico onde a tal maldade reina
É a mentira espalhando o seu reinado
É a calúnia que próprio diabo treina
Coração feito breu enegrecido
Toda maledicência é sem sentido
Faz o fel amargoso retornar
Quem semeia este vento há de colher
Tempestade há de devastar seu ser
Onde o mal para sempre irá morar!
(Merlânio Maia)

terça-feira, 20 de novembro de 2018

O LIXO DO PRECONCEITO


O LIXO DO PRECONCEITO
Merlanio Maia

Enterre o seu preconceito
Cor da pele não define
Nem diminui o sujeito

A sua vó não retine
Nós somos humanidade
Vê que imbecilidade
A segregação de cor
Fazendo os iguais humanos
Diferentes em seus planos
Semeando o desamor

A triste realidade
É que jovens vem morrendo
Por ter sua pele escura
Perseguição ocorrendo
Sequer oportunidade
Nos empregos de verdade
Os negros e negras têm
Que sociedade horrível
De preconceito terrível
Distanciada do bem

Em tempos bem avançados
Desta tecnologia
Quem aqui pode afirmar
Da pureza da etnia?
Depois de tanta mistura
Quem pode alegar ser pura
Sua raça? E mesmo assim
Ninguém pode segregar,
Perseguir, prejudicar
Pela cor, seria o fim!

Nós somos esses humanos
Temos que ter consciência
Da igualdade da raça
Da etnia e da decência
Para que nos amanhãs
Nossas almas sejam sãs
Sem crueldade ou defeito
Que despertemos agora
Jogando esse lixo fora
Que chamamos PRECONCEITO!


segunda-feira, 3 de setembro de 2018

UM PAÍS SEM NAÇÃO



O PAÍS SEM NAÇÃO
Merlanio Maia

Um país sem competência
De cuidar da sua história
Sem presente e sem futuro
Sem soberania ou glória
A cada ano um museu
Vira pó, cinzas e breu
Deixando o povo sem chão
Sem memória e sem futuro
Somente este ódio impuro
Forja um país sem nação!

Um país que seus políticos
São sanguessugas vampiros
Como não têm ideal
Queimam museus e papiros
Nada sabem de história
Não alimentam a memória
Sonham só com seu cifrão
São cupins cuja madeira
É a riqueza brasileira
Seu país é sem nação!

E o povo deste país
Que os elege de novo
É um povo sem futuro
É um espectro de povo
Vende o voto e vende a alma
Se vende e vive na palma
Da mão deste "Grande Irmão"
O resultado está aí
Incêndios aqui e ali
Nesse país sem nação!

Brasil desperta depressa!
Brasil acorda do sono!
Não vês que o mal se alastra
Que dormes no abandono?
Mostra o gigante de pé
Ensina ao teu povo a fé,
A esperança e a ação
Prende o ladrão e o corruto
Dá o teu grito resoluto
Solta teu braço impoluto
E faz-te PAÍS-NAÇÃO!
MM

quarta-feira, 4 de julho de 2018

A FÁBULA DAS TRÊS ÁRVORES



A FÁBULA DAS TRÊS ÁRVORES
Merlânio Maia



Contam que havia num bosque
Três árvores bem frondosas
Enfeitando a natureza
Viris, fortes e formosas
Oferecendo os seus galhos
Pra servirem de agasalhos
Aos pequenos passarinhos
Que ali se protegiam
Ali cantavam e faziam
Muito tranqüilas seus ninhos

Desde muito pequeninas
Naquele bosque risonho
Cada uma dessas árvores
Alimentava seu sonho
E daquilo que sonhavam
As três se alimentavam
E bem felizes viviam
Servindo e sempre sonhando
Aos seus sonhos detalhando
E todo o dia repetiam

E a primeira dizia
Olhando o céu estrelado
- Do machado nada temo
Pois serei baú pesado
A guardar grande tesouro
De gema rara e de ouro
De safira e de brilhante
E assim serei lembrada
Por todos serei falada
Desse momento em diante

Dizia a segunda alegre
Olhando o rio grande e forte:
- Que meu sonho aconteça
Mesmo que o machado corte
Pois serei grande Navio
A enfrentar mar bravio
E onde reis, generais
Lendas vivas, me usarão
E de mim se lembrarão
Sem se esquecerem jamais

A terceira olhando o vale
Falou entusiasmada:
- O que temer se meu sonho
É ser grande, admirada
Ficar tão fenomenal
Que quem me vir, afinal
Erga aos céus os olhos seus
Lembre a sua finitude
E mude sua atitude
Lembrando sempre de Deus

E todo o dia essas árvores
Seus sonhos alimentavam
Foram crescendo, crescendo
Tão altas que ao céu fitavam
Mas lenhadores bisonhos
Sem nada entender de sonhos
Usam seus rudes machados
Que perfumados ficaram
Quando as árvores arriaram
Naquele bosque adorado

A primeira é transformada
Não no baú desejado
Mas num cocho tosco e rude
Num estábulo atirado
Alimentando animais
Seu sonho ficou pra trás
E a vida nos fios seus
Segue e ela que é só tristeza
Repleta de incerteza
Pergunta: -Porque, meu Deus?

A segunda é convertida
Simples barco de pescar
Onde humilde pescadores
Adentravam pelo mar
Buscando o seu alimento
A enfrentar chuva e tormento
Toda hora, todo o dia
E ela seguia sem crer
Perguntando a sofrer:
- Por que o meu sonho morria?

E a terceira sonhando
Em crescer no seu propósito
Foi cortada em altas vigas
E atirada num depósito
E o tempo baixa a cortina
O espetáculo não termina
E a árvore é só tristeza
Sem ter seu sonho atendido
Pergunta em seu ser sentido:
- Por que, oh! Mãe Natureza?

Mas numa noite de estrelas
De um céu fenomenal
Cantavam-se melodias
De alegria sem igual
E uma mãe doce, tão linda
Que era tão jovem ainda
Depositou seu filhinho
Um bebê recém-nascido
Naquele cocho vencido
E hei-lo qual sublime ninho

Foi tão grande a alegria
Que a árvore primeira
Enfim tudo compreendeu
E rejubilou-se inteira
Pois nela fora guardado
O tesouro mais sagrado
Que o mundo conheceu
A Terra se iluminou
E um coro do céu cantou:
- É Natal. Jesus Nasceu!

Passaram-se trinta anos
E a árvore-embarcação
Recebe um belo homem
Do mais puro coração
E enquanto ele dormia
A tempestade invadia
Em destruição voraz
Foi quando ele despertou
E a tempestade acalmou
Quando ele disse: - PAZ!

E esta Segunda árvore
Viu o maior soberano
Senhor da Terra e dos céus
Da vida e dos oceanos
O maior conquistador
Dado o seu poder de amor
Pois d’Ele emanava luz
Seu ser passou a sorrir
Sempre, sempre a conduzir
O Cristo de Deus: Jesus!

E mais um pouco de tempo
Vemos a Árvore terceira
Sendo, enfim, utilizada
Na tarde de Sexta-feira
Unida em forma de cruz
Nela pregaram Jesus
Um homem tão iluminado
Tão santo que lhe doía
Mas retorna sua alegria
Vendo o sonho realizado

Três árvores, um só destino
Acreditaram em seus sonhos
Do bosque lá da montanha
Aos seus momentos tristonhos
Cada sonho aconteceu
Mais belo do que nasceu
Mais vivo e cheio de som
Provando a todos nós
Que jamais estamos sós
E tudo o que Deus faz é bom!




segunda-feira, 21 de agosto de 2017

MERLANIO MAIA NO TEATRO SANTA ISABEL EM RECIFE PE

MOMENTO DO SHOW NO TEATRO SANTA ISABEL EM RECIFE/PE.
O violeiro Cristiano Oliveira e o poeta Merlânio Maia

O Poeta e o Violeiro






DIALETO NORDESTINÊS

DIALETO NORDESTINÊS
(Autor: Merlânio Maia)


Quem já foi no meu Sertão
E ouviu um falar maneiro
Viu de perto o dialeto
Nordestinês verdadeiro
A fala é canto e beleza
E imprime em nós a grandeza
Para além de certo e errado
Falamos nordestinês
E eu vou mostrar pra vocês
Cada significado

ANTONCE lá é então
Competente é ARROMBADO
“MÓI DE GENTE” multidão
Lá festa é TARRABUFADO
Confusão REBUCETÊI
“Dê a volta” é ARRUDÊI
Cabeça é CÔCO e CAXAÇO
E o poderoso é GRAÚDO
ESTRIBADO É dinheirudo
E DINHEIRUDO é ricaço

“AVIA, PESTE!” é vai logo!
LISO é cabra sem tostão
Coisa ruim lá é AGÔRO
E AZÁ é confusão
Povo fêi é TRIBUFÚ
CATREVAGE, CAFUÇÚ,
Banco lá é TAMBORETE
Mal-estar é FARNIZIM
E caquiado é PANTIM
PANTIM, manha e cacoete!

TOITIÇO lá é CANGOTE
E CANGOTE lá é nuca
Jarra d’água lá é POTE
TITELA lá é CAVUCA
Os olhos lá se diz ZÓIO
Quantidade lá é MÓIO
Lá XODÓ se diz XAMEGO
XAMEGO lá é namoro
Petulância é DISAFÔRO
PEDIR PINICO é arrego

OXENTE é OXENTE, OXENTE!
OXI é o seu diminutivo
É interjeição potente
TUBIBA é moleque ativo
PRESEPADA é MUNGANGAGE
SAFADAGE e VADIAGE
DAR NO PIRA é ir-se embora
Lá quem DEU FÉ viu e olhou
Quem INCAICÔ apertou
Se ESCAFEDEU, deu o fora

Se BATEU A SIPITICA
FINÔ-SE, FOI DE PÉJUNTO
BATEU PREXECA e XAMPRÔ
Tudo refere a defunto
Menino lá é BOCHUDO
Adolescente é TALUDO
MUÍDO é reclamação
FUXICO É CURRIXIADO
O feio é DESCONCERTADO
Sogra é a IMAGE DO CÃO

Gravidez lá é AMOJO
RAME-RAME indecisão
COTÔCO lá é pedaço
PIPOCO ali é EXPLOSÃO
Lá não tem Gay, lá tem FRESCO
TRUÇÚI é cabra grotesco
TRIATO é BUTÁ BUNECO
BUTÁ BUNECO é escândalo
QUEBRA-PAU por lá é Vândalo
BUDEGA é Bar e Boteco

CHAMBOQUE é tirar pedaço
INTURIDO é entalado
GALALAU  é gente alta
MUNDIÇA é mal educado
CANGAIÁ é cornear
SOCAR lá é enfiar
Lá CACHETE é comprimido
SIRICUTICO é desmaio
Conversa longa é EMPAIO
SOBEJO é resto comido

ENCAFIFADO é intrigado
CANGUÊRO é mal motorista
BAFO DE ONÇA, mau hálito
DAR NO PAU, pagar à vista
DE VENETA é inconstante
INFITETE é meliante
MARRA DE HOMI, homem forte
CURIÁ, ATUCAIÁ
E ATUCAIÁ é espiar
CAIPORA é cabra sem sorte

CAIXA PREGO é bem distante
Lá PEITICA é insistência
VÉA CORÓCA é idosa
Sem nada de paciência
FUÁ é cabelo armado
Lá FOLOTE é afrouxado
ATARENTADO é perdido
ESBAFORIDA é cansada
PORRETA é gente ARRETADA
E ISPIXADO é bem comprido

SEBOSO é sujo e nojento
FUBENTO é cor desbotada
BOCADO é MÓI e é muito
GAIATO é gente engraçada
PINOTE é pulo e é salto
MANÉ BESTA é leso e incauto
Lá Topada é TRUPICÃO
MIXURUCA é sem valor
GALO VÉI conquistador
E VISAGE assombração

DÁ BILÔRA e PASSAMENTO
PUZUMENO, CARITÓ,
RISPOSTÔ, DIZINXABIDO,
CAXEXÊRA, MATRICÓ,
CUM ROSCÓFE E PECENÊIS
E eu passaria um mês
Só pra dar a dimensão
De um dialeto à altura
Orgulho em nossa cultura
Nossa língua é bela e pura
Pura NORDESTINAÇÃO!