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domingo, 18 de novembro de 2007

A OUTRA COSTELA - Merlânio Maia


Dizem que depois que Deus
Dos dotes e amores seus
Inventou, do barro, Adão
Percebeu no seu verniz
Que o pobre era infeliz
Vivendo na solidão

Então foi lá resolver
Fez Adão adormecer
Naquela tarde singela
E na região dorsal
Fez um corte transversal
Tirando-lhe uma costela

Passou a mão e fechou
O corte cicatrizou
Sem inchaço nem riscado
Mandou Adão acordar
Mas notou no seu andar
Que ele ficara aleijado

Sem a costela direita
A obra estava imperfeita
E o Senhor volta a operar
Retira a do outro lado
Deixa Adão recuperado
E vai a Eva criar

Ficou a outra costela
Jogada no chão daquela
Floresta do paraíso
Mas cachorro e urubu
Corroeram o osso cru
Ah! Dois bichos sem juízo!

Quando Deus bem satisfeito
Procurou o osso perfeito
Já estava “assim” de formiga
Disputada entre os cachorros
E os urubus nos morros
Por ela fazendo briga

Deus tomou-lhes a costela
Mas o que sobrou daquela
Ficou feio de se ver
Mas da costela mal feita
Uma arte bem perfeita
O Senhor pensou fazer

O Obreiro da Criação
Usou da sua razão
Nessa costela ruída
Furou, puxou e torceu
Raspou, colou e bateu
E no final soprou vida

Meio triste e desolado
Deus disse: - “Está tudo errado
Pois a peça se perdeu!”
Mas Adão disse: - Está feito
Deixe assim que eu aceito!
Depois se arrependeu

Mesmo repleto de amor
O Todo-sábio Senhor
Que nada no mundo logra
Ao ver o seu resultado
Resmungou: - Fiz tudo errado!
Pois tinha criado a SOGRA

E assim fez o Criador
Sempre repleto de amor
Deixou sua obra em paz
Mas criou sem intenção
Na derradeira invenção
A PARÊA DE SATANÁS!

O ECRIPE - Pompílio Diniz

O ECRIPE
Pompílio Diniz


Essa história de dizê
Qui o mundo vai se acabá
Já deu muito o qui fazê
Já deu muito o qui conta
As muié num hora dessa
Pra seus marido cumeça
Munto segredo contá!


Era comum no sertão

Si aquerditá nas bestêra

Do “Cabeça de Lião”

Um amanaque de fera
Qui o povo qui lê si intope
De pruficia e horoscope,
Pru resto da vida intera!...



Veja cuma o povo omenta

Essas coisa pra pió

Já no fina de quarenta

Naquele ecripse do Só
Os amanaque dizia
Qui o mundo naquele dia
Num ficava nem o pó!



Quando o buato correu

Todo mundo aquerditô

E a muié de Rumeu

Qui a principi num ligô
Veno o mundo iscurecê
Pensano qui ia morrê
Pra seu marido falô:



- Ô Rumeu, meu Rumeuzin!

Tu perdoa os erro meu?!

Já qui o mundo ta no fim

Vou contá o qui acunteceu
Tu sempre pensô qui eu era
Uma muié muito séra
Mas foi ingano, Rumeu!



Tu sabe cuma é os home

Eles num serve pra nada

Pois nunca arrespeita o nome

Nem liança de casada
E a gente cum sacrifiço
Vai regeitano no iníço
Mas a insistênça é danada!...



Tu te alembra de Justino?

Pois ele foi o premêro

Dispois dele o Belarmino,

Honorato Missanguêro,
Chico Brabo, Zé do Ganço,
Sivirino, véio Amanso
E o seu Mane Sapatêro...



Ô Rumeu tu ta lembrado

Daqueles vinte mi réis

Qui eu dixe qui tinha achado

Duas notinhas de dez?!
Aquelas nota Rumeu
Tu qué sabê quem me deu?
Foi teu cumpade Moisés!



Naquelas tuas viage

Pras fêrass nde Cunceição,

Te falo sem pabulage

Muitas vez o sacristão
Trazia do seu Vigáro
Aqueles vinho bem caro
Pra nóis dois toma pifão!



Mas a curpa nun é minha,

Pois muitas veiz tu saia

E me dexava sozinha

Sem nenhuma cumpanhia
Tu num ligava pra nada
Eu tombem fica parada
Desse jeito num pudia!...



Quantas veiz tu ia as festa

Pra dansá e se divirti

E eu ficava feito besta

Em casa sem pudê i!
Apois quando tu saía
Eu tombem mi divirtia
Cum Juvenço Bentivi!



Inquanto o Ecripi durô

Foi pra Rumeu padicê

Pois tudo qui se passô

A muié foi lhe dizê
Quando essas coisa acuntece
Os coitadinho parece
Qui é o derradêro a sabe!