Tudo que é pé de conversa tem o seu dedo de prosa!

Este recanto tem a obra dos maiores Poetas do mundo!

domingo, 15 de maio de 2016

O MUNDO É DA MULHER




O MUNDO É DA MULHER
Poeta Merlânio Maia

Que dizer de quem encanta
Somente em aparecer
Lindeza que se levanta
Aos que têm olhos de ver?
Que ser é este, irmandade,
Que inventa a felicidade
Quando se deseja e quer
Que poder que irradia
De Madalena a Maria
O mundo é da Mulher

De frágil ser pequenino
Cresce e inventa seu mundo
Assim é o ser feminino
No seu sentido profundo
Dá vida, ensina, alimenta,
Ilumina e acalenta,
Faz deles o que quiser
Seu poder é tão imenso
Que muitas vezes eu penso
Que o mundo é da mulher

Sua mente é poderosa
Seu olhar é aguçado
É cheirosa como a rosa
O seu corpo é desenhado
O composto é tão perfeito
Pra ninguém botar defeito
Pesado é o seu mister
Seu veneno fere e mata,
Mas seu carinho arrebata
Eis que o mundo é da mulher

Ela é um instrumento
Que Deus botou sobre a Terra
Na beleza monumento
Que produz a Paz e a Guerra
Seu ventre é veio de vida
Sua alma é possuída
Daquilo que ela quer
Do pecado à santidade
Transita com intimidade
Pois o mundo é da mulher

Homem nenhum lhe entende
Outra nem quer entender
Pra onde o desejo pende
Ela investe seu poder
Pode governar o mundo
Seu universo profundo
Lhe dará tudo o que quer
Por isso, pobre poeta,
Me entrego de alma completa
Que o mundo é da Mulher!!!

segunda-feira, 21 de março de 2016

O Cavalo que Defecava Dinheiro

O Cavalo que Defecava Dinheiro
Leandro Gomes de Barros

Uma coisa eu aprendi
que ninguém faz discordância
Riqueza só é um mal
aumentada a importância
Dinheiro não é ruim
O ruim é a ganância

Na cidade de Macaé
Antigamente existia
Um duque velho invejoso
Que nada o satisfazia
Desejava possuir
Todo objeto que via

Esse duque era compadre
De um pobre muito atrasado
Que morava em sua terra
Num rancho todo estragado
Sustentava seus filhinhos
Na vida de alugado.

Se vendo o compadre pobre
Naquela vida privada
Foi trabalhar nos engenhos
Longe da sua morada
Na volta trouxe um cavalo
Que não servia pra nada

Disse o pobre à mulher:
─ Como havemos de passar?
O cavalo é magro e velho
Não pode mais trabalhar
Vamos inventar um "quengo"
Pra ver se o querem comprar.

Foi na venda e de lá trouxe
Três moedas de cruzado
Sem dizer nada a ninguém
Para não ser censurado
No fiofó do cavalo
Foi o dinheiro guardado

Do fiofó do cavalo
Ele fez um mealheiro
Saiu dizendo: ─ Sou rico!
Inda mais que um fazendeiro,
Porque possuo o cavalo
Que só defeca dinheiro

Quando o duque velho soube
Que ele tinha esse cavalo
Disse pra velha duquesa:
─ Amanhã vou visitá-lo
Se o animal for assim
Faço o jeito de comprá-lo!

Saiu o duque vexado
Fazendo que não sabia,
Saiu percorrendo as terras
Como quem não conhecia
Foi visitar a choupana,
Onde o pobre residia.

Chegou salvando o compadre
Muito desinteressado:
─ Compadre, Como lhe vai?
Onde tanto tem andado?
Há dias que lhe vejo
Parece está melhorado...

─ É muito certo compadre
Ainda não melhorei
Porque andava por fora
Faz três dias que cheguei
Mas breve farei fortuna
Com um cavalo que comprei.

─ Se for assim, meu compadre
Você está muito bem!
É bom guardar o segredo,
Não conte nada a ninguém.
Me conte qual a vantagem
Que este seu cavalo tem?

Disse o pobre: ─ Ele está magro
Só o osso e o couro,
Porém tratando-se dele
Meu cavalo é um tesouro
Basta dizer que defeca
Níquel, prata, cobre e ouro!

Aí chamou o compadre
E saiu muito vexado,
Para o lugar onde tinha
O cavalo defecado
O duque ainda encontrou
Três moedas de cruzado.

Então exclamou o velho:
─ Só pude achar essas três!
Disse o pobre: ─ Ontem à tarde
Ele botou dezesseis!
Ele já tem defecado,
Dez mil réis mais de uma vez.

─ Enquanto ele está magro
Me serve de mealheiro.
Eu tenho tratado dele
Com bagaço do terreiro,
Porém depois dele gordo
Não tem quem vença o dinheiro...

Disse o velho: ─ meu compadre
Você não pode tratá-lo,
Se for trabalhar com ele
É com certeza matá-lo
O melhor que você faz
É vender-me este cavalo!

─ Meu compadre, este cavalo
Eu posso negociar,
Só se for por uma soma
Que dê para eu passar
Com toda minha família,
E não precise trabalhar.

O velho disse ao compadre:
─ Assim não é que se faz
Nossa amizade é antiga
Desde os tempo de seus pais
Dou-lhe seis contos de réis
Acha pouco, inda quer mais?

─ Compadre, o cavalo é seu!
Eu nada mais lhe direi,
Ele, por este dinheiro
Que agora me sujeitei
Para mim não foi vendido,
Faça de conta que te dei!

O velho pela ambição
Que era descomunal,
Deu-lhe seis contos de réis
Todo em moeda legal
Depois pegou no cabresto
E foi puxando o animal.

Quando ele chegou em casa
Foi gritando no terreiro:
─ Eu sou o homem mais rico
Que habita o mundo inteiro!
Porque possuo um cavalo
Que só defeca dinheiro!

Pegou o dito cavalo
Botou na estrebaria,
Milho, farelo e alface
Era o que ele comia
O velho duque ia lá,
Dez, doze vezes por dia...

Aí o velho zangou-se
Começou logo a falar:
─ Como é que meu compadre
Se atreve a me enganar?
Eu quero ver amanhã
O que ele vai me contar.

Porém o compadre pobre,
(Bicho do quengo lixado)
Fez depressa outro plano
Inda mais bem arranjado
Esperando o velho duque
Quando viesse zangado...

O pobre foi na farmácia
Comprou uma borrachinha
Depois mandou encher ela
Com sangue de uma galinha
E sempre olhando a estrada
Pré ver se o velho vinha.

Disse o pobre à mulher:
─ Faça o trabalho direito
Pegue esta borrachinha
Amarre em cima do peito
Para o velho não saber,
Como o trabalho foi feito!

Quando o velho aparecer
Na volta daquela estrada,
Você começa a falar
Eu grito: ─ Oh mulher danada!
Quando ele estiver bem perto,
Eu lhe dou uma facada.

Porém eu dou-lhe a facada
Em cima da borrachinha
E você fica lavada
Com o sangue da galinha
Eu grito: ─ Arre danada!
Nunca mais comes farinha!

Quando ele ver você morta
Parte para me prender,
Então eu digo para ele:
─ Eu dou jeito ela viver,
O remédio tenho aqui,
Faço para o senhor ver!

─ Eu vou buscar a rabeca
Começo logo a tocar
Você então se remexa
Como quem vai melhorar
Com pouco diz: ─ Estou boa
Já posso me levantar.

Quando findou-se a conversa
Na mesma ocasião
O velho ia chegando
Aí travou-se a questão
O pobre passou-lhe a faca,
Botou a mulher no chão.

O velho gritou a ele
Quando viu a mulher morta:
─ Esteja preso, bandido!
E tomou conta da porta
Disse o pobre: ─ Vou curá-la!
Pra que o senhor se importa?

─ O senhor é um bandido
Infame de cara dura
Todo mundo apreciava
Esta infeliz criatura
Depois dela assassinada,
O senhor diz que tem cura?

Compadre, não admito
O senhor dizer mais nada,
Não é crime se matar
Sendo a mulher malcriada
E mesmo com dez minutos,
Eu dou a mulher curada!

Correu foi ver a rabeca
Começou logo a tocar
De repente o velho viu
A mulher se endireitar
E depois disse: ─ Estou boa,
Já posso me levantar...

O velho ficou suspenso
De ver a mulher curada,
Porém como estava vendo
Ela muito ensangüentada
Correu ela, mas não viu,
Nem o sinal da facada.

O pobre entusiasmado
Disse-lhe: ─ Já conheceu
Quando esta rabeca estava
Na mão de quem me vendeu,
Tinha feito muitas curas
De gente que já morreu!

No lugar onde eu estiver
Não deixo ninguém morrer,
Como eu adquiri ela
Muita gente quer saber
Mas ela me está tão cara
Que não me convém dizer.

O velho que tinha vindo
Somente propor questão,
Por que o cavalo velho
Nunca botou um tostão
Quando viu a tal rabeca
Quase morre de ambição.

─ Compadre, você desculpe
De eu ter tratado assim
Porque agora estou certo
Eu mesmo fui o ruim
Porém a sua rabeca
Só serve bem para mim.

─ Mas como eu sou um homem
De muito grande poder
O senhor é um homem pobre
Ninguém quer o conhecer
Perca o amor da rabeca...
Responda se quer vender?

─ Porque a minha mulher
Também é muito estouvada
Se eu comprar esta rabeca
Dela não suporto nada
Se quiser teimar comigo,
Eu dou-lhe uma facada.

─ Ela se vê quase morta
Já conhece o castigo,
Mas eu com esta rabeca
Salvo ela do perigo
Ela daí por diante,
Não quer mais teimar comigo!

Disse-lhe o compadre pobre:
─ O senhor faz muito bem,
Quer me comprar a rabeca
Não venderei a ninguém
Custa seis contos de réis,
Por menos nem um vintém.

O velho muito contente
Tornou então repetir:
─ A rabeca já é minha
Eu preciso a possuir
Ela para mim foi dada,
Você não soube pedir.

Pagou a rabeca e disse:
─ Vou já mostrar a mulher!
A velha zangou-se e disse:
─ Vá mostrar a quem quiser!
Eu não quero ser culpada
Do prejuízo que houver.

─ O senhor é mesmo um velho
Avarento e interesseiro,
Que já fez do seu cavalo
Que defecava dinheiro?
─ Meu velho, dê-se a respeito,
Não seja tão embusteiro.

O velho que confiava
Na rabeca que comprou
Disse a ela: ─ Cale a boca!
O mundo agora virou
Dou-lhe quatro punhaladas,
Já você sabe quem sou.

Ele findou as palavras
A velha ficou teimando,
Disse ele: ─ Velha dos diabos
Você ainda está falando?
Deu-lhe quatro punhaladas
Ela caiu arquejando...

O velho muito ligeiro
Foi buscar a rabequinha,
Ele tocava e dizia:
─ Acorde, minha velhinha!
Porém a pobre da velha,
Nunca mais comeu farinha.

O duque estava pensando
Que sua mulher tornava
Ela acabou de morrer
Porém ele duvidava
Depois então conheceu
Que a rabeca não prestava.

Quando ele ficou certo
Que a velha tinha morrido
Botô os joelhos no chão
E deu tão grande gemido
Que o povo daquela casa
Ficou todo comovido.

Ele dizia chorando:
─ Esse crime hei de vingá-lo
Seis contos desta rabeca
Com outros seis do cavalo
Eu lá não mando ninguém,
Porque pretendo matá-lo.

Mandou chamar dois capangas:
─ Me façam um surrão bem feito
Façam isto com cuidado
Quero ele um pouco estreito
Com uma argola bem forte,
Pra levar este sujeito!

Quando acabar de fazer
Mande este bandido entrar,
Para dentro do surrão
E acabem de costurar
O levem para o rochedo,
Para sacudi-lo no mar.

Os homens eram dispostos
Findaram no mesmo dia,
O pobre entrou no surrão
Pois era o jeito que havia
Botaram o surrão nas costas
E saíram numa folia.

Adiante disse um capanga:
─ Está muito alto o rojão,
Eu estou muito cansado,
Botemos isto no chão!
Vamos tomar uma pinga,
Deixe ficar o surrão.

─ Está muito bem, companheiro
Vamos tomar a bicada!
(Assim falou o capanga
Dizendo pro camarada)
Seguiram ambos pra venda
Ficando além da estrada...

Quando os capangas seguiram
Ele cá ficou dizendo:
─ Não caso porque não quero,
Me acho aqui padecendo...
A moça é milionária
O resto eu bem compreendo!

Foi passando um boiadeiro
Quando ele dizia assim,
O boiadeiro pediu-lhe:
─ Arranje isto pra mim
Não importa que a moça
Seja boa ou ruim!

O boiadeiro lhe disse:
─ Eu dou-lhe de mão beijada,
Todos os meus possuídos
Vão aqui nessa boiada...
Fica o senhor como dono,
Pode seguir a jornada!

Ele condenado à morte
Não fez questão, aceitou,
Descoseu o tal surrão
O boiadeiro entrou
O pobre morto de medo
Num minuto costurou.

O pobre quando se viu
Livre daquela enrascada,
Montou-se num bom cavalo
E tomou conta da boiada,
Saiu por ali dizendo:
─ A mim não falta mais nada.

Os capangas nada viram
Porque fizeram ligeiro,
Pegaram o dito surrão
Com o pobre do boiadeiro
Voaram de serra abaixo
Não ficou um osso inteiro.

Fazia dois ou três meses
Que o pobre negociava
A boiada que lhe deram
Cada vez mais aumentava
Foi ele um dia passar,
Onde o compadre morava...

Quando o compadre viu ele
De susto empalideceu;
─ Compadre, por onde andava
Que agora me apareceu?!
Segundo o que me parece,
Está mais rico do que eu...

─ Aqueles seus dois capangas
Voaram-me num lugar
Eu caí de serra abaixo
Até na beira do mar
Aí vi tanto dinheiro,
Quanto pudesse apanhar!..

─ Quando me faltar dinheiro
Eu prontamente vou ver.
O que eu trouxe não é pouco,
Vai dando pra eu viver
Junto com a minha família,
Passar bem até morrer.

─ Compadre, a sua riqueza
Diga que fui eu quem dei!
Pra você recompensar-me
Tudo quanto lhe arranjei,
É preciso que me bote
No lugar que lhe botei!..

Disse-lhe o pobre: ─ Pois não,
Estou pronto pra lhe mostrar!
Eu junto com os capangas
Nós mesmo vamos levar
E o surrão de serra abaixo
Sou eu quem quero empurrar!

O velho no mesmo dia
Mandou fazer um surrão.
Depressa meteu-se nele,
Cego pela ambição
E disse: ─ Compadre eu estou
À tua disposição.

O pobre foi procurar
Dois cabras de confiança
Se fingindo satisfeito
Fazendo a coisa bem mansa
Só assim ele podia,
Tomar a sua vingança.

Saíram com este velho
Na carreira, sem parar
Subiram de serra acima
Até o último lugar
Daí voaram o surrão
Deixaram o velho embolar...

O velho ia pensando
De encontrar muito dinheiro,
Porém sucedeu com ele
Do jeito do boiadeiro,
Que quando chegou embaixo
Não tinha um só osso inteiro.

Este livrinho nos mostra
Que a ambição nada convém
Todo homem ambicioso
Nunca pode viver bem,
Arriscando o que possui
Em cima do que já tem.

Cada um faça por si,
Eu também farei por mim!
É este um dos motivos
Que o mundo está ruim,
Porque estamos cercados
Dos homens que pensam assim.

FIM

quarta-feira, 9 de março de 2016

DO MISTÉRIO AO PARAÍSO

DO MISTÉRIO AO PARAÍSO
Poeta Merlânio Maia

A mulher é um mistério
Que homem nenhum desvenda
Nenhum filósofo sério
Assumiu essa encomenda
Sua atração tão potente
Gamou, não há ser vivente,
Dali ninguém sai curado
O homem entra iludido
Mandão, forte e destemido,
Sai manso e domesticado

Homem que tinha de tudo
Dinheiro, poder e fama,
A mulher lhe deixa mudo
Com os seus dotes de dama
Eita, bicho poderoso
Ô feitiço mais gostoso
Que faz do homem o que quer
Nada no mundo é mais forte
Nem mesmo a foice da morte
Tem a força da mulher

É um mistério, pois ela
É frágil, doce e melosa,
Cheirosa, atraente e bela,
Cativante como a rosa
Já o homem é todo duro
Desajeitado e inseguro
Bruto ao que der e vier
Mas essa ferocidade
Some na sagacidade
E na astúcia da mulher

Ah! Que coisa mais formosa
Que nos deixa sem juízo
E o seu perfume de rosa
Tem cheiro de paraíso
Não há quem fuja da ceia
Do cantar dessa sereia
Que encantará qualquer
Um que escute esse canto
Tem diabo que vira santo
Pela força da mulher

Há um encanto tão doce,
Tão forte e tão poderoso
Que quando o mundo formou-se
Adão se achava pomposo
Mandando na criação
Mais sabido que o leão
Forte ao que der e vier
Mas esse mundo acabou-se
Quando o coitado encontrou-se
Com a poderosa mulher!

Mas como viver no mundo
Sem carinho, sem afeto,
Sem seu hálito fecundo,
Sem o seu amor completo?
Como viver sem desejo,
Sem a delícia do beijo,
Sem um “pecadim” sequer?
Nada há melhor no juízo
Da mistério ao Paraíso
Que os braços duma mulher!

sexta-feira, 17 de julho de 2015

MANOEL XUDU

Do amigo Ésio Rafael!


Manoel Xudu Sobrinho
Ave Maria!
por Ésio Rafael

O homem que bem pensar
Não tira a vida de um grilo
A mata fica calada
O bosque fica intranqüilo
A lua fica chorosa
Por não poder mais ouvi-lo
(Manoel Xudu)

Na cantoria de viola existem certos detalhes que personalizam determinados cantadores. Isso vem a ocorrer evidentemente, em outras categorias de artistas. Claro que os cantadores estão sempre preparados para enfrentar várias modalidades típicas da profissão, acrescentando aí, as regras impostas pelos Festivais de Violas que acontecem em alguns Estados da Federação. Mas, alguns se caracterizam tanto pela voz, como pelo toque da viola, ou por gostarem mais de desenvolver temas, como: martelo, sextilhas, sete linhas, mourões, etc.


foto: acervo do blog
No pé da parede

Os chamados, “ouvintes de cantoria”, que também são poetas, apesar de não fabricarem os versos, exercem, e como exercem, uma cumplicidade com os cantadores. Eles sabem das histórias dos poetas, declamam seus versos de pé-de-parede, passam pra frente além de ter um passado histórico de imortalizar os vates mais consagrados. Ainda tem um detalhe fundamental relacionado à categoria dos “ouvintes”: eles inspiram os cantadores no momento em que criam os motes já com uma dosagem forte de um poema. Quando Manoel Filó dá o mote: - Uma gota de pranto molha o riso/ Quando o preso recebe a liberdade. Ou então: - O espinho é o vigia/Da inocência da flor. Eis aí, uma possibilidade real do cantador se inspirar, para produzir “pérolas”.

Manoel Xudu Sobrinho foi um homem simples, generoso, eternamente, cavalheiro, incapaz de um ato ríspido, mesmo nas horas em que sua tranqüilidade corresse o risco de ser ameaçada. Nem por isso deixou de ser um poeta atormentado, de permeio, entre “o mundo e o nada”, o pranto e o riso. Natural da cidade de Pilar, na Paraíba, conterrâneo de José Lins do Rego e de João Lourenço, violeiro em plena atividade profissional.

“A obra de Xudu exige um conhecimento maior desse gênio do repente. Cada estrofe é um monumento de Arte, a expressar uma cascata de emoções que despenca em uma alma profundamente humanística”.

Xudu preenche as exigências da categoria, no que concerne, o cantador, o poeta, e o repentista. O cantador canta em qualquer estilo, atende ao mercado, espreita os acontecimentos diários. O poeta não se explica, graças a Deus! Tudo tende à emoção. É o Arquiteto dos sonhos e da metáfora. O repentista é simplesmente maravilhoso! É a marca registrada do repente. É quem pega o fato no ar, muitas vezes sem saber nem o que vai dizer. Ele pega de bote.

Xudu era tudo isso, dentro de uma simplicidade tamanha, ele abordava os temas mais profundos, com a maior presteza:

A MULHER QUE EU CASEI
ALÉM DE LINDA É BREJEIRA
DAQUELAS QUE VAI À MISSA
NO DOMINGO E TERÇA-FEIRA
DAS QUE FAZ UMA SOMBRINHA
COM UM PÉ DE CARRAPATEIRA.

A arte do improviso alimentava corpo e alma deste poeta, do “Pilar”. Bom tocador de viola, o que é um tanto raro dentre os repentistas. Ele e Severino Ferreira quando se deparavam, o “cancão piava”, no desafio só de viola. Gostava de uma “branquinha”. Meu Deus! Às vezes os próprios colegas o prendiam num quarto, até de motel, contanto que ele estivesse bom para o desafio noturno dos “Festivais”.

Xudu colocava a mulher em uma sextilha, onde ela era cúmplice dele, e ainda era quem dava a “chave”. Mas, isso não bonito?

EU ESTAVA NA PRECISÃO
QUANDO ME CASEI COM NITA
NADA TINHA PRA LHE DAR
DEI-LHE UM VESTIDO CHITA
ELA OLHOU SORRINDO E DISSE
OH! QUE FAZENDA BONITA!

Mas, por falar em mulher, nada melhor do que chamar Xudu. Claro, todos somos Freudianos:

MAMÃE QUE ME DAVA PAPA
ME DAVA PÃO E CONSOLO
DAVA CAFÉ DAVA BOLO
LEITE FERVIDO E GARAPA
MAS UMA VEZ DEU-ME UM TAPA
E DEPOIS SE ARREPENDEU
BEIJOU AONDE BATEU
DESMANCHOU A INCHAÇÃO
“QUEM NÃO TEM MÃE TEM RAZÃO
DE CHORAR O QUE PERDEU”.

E então? Veremos agora, o Xudu autobiográfico. Revelando uma trajetória de vida no sacrifício, na porrada. Particularmente, nunca tinha visto uma autobiografia, tão sincera, com todas as etapas da vida do poeta. Genial:

DIA 13 DE MARÇO TERÇA-FEIRA
ANO MIL NOVECENTOS TRINTA E DOIS
POUCO TEMPO DEPOIS QUE O SOL SE PÔS
MAMÃE DAVA GEMIDOS NA ESTEIRA
NUMA CASA DE BARRO E DE MADEIRA
MUITO HUMILDE COBERTA DE CAPIM
EU NASCI PRA VIVER SOFRENDO ASSIM
MINHA DOR VEM DOS TEMPOS DE MENINO
VIVO TRISTE POR CAUSA DO DESTINO
E A SAUDADE CORRENDO ATRÁS DE MIM.

Daqui vai um alerta para aqueles que conhecem outras versões de alguns versos que por acaso constem nesta matéria. É que, os próprios ouvintes de cantoria, os cantadores, os livros (e são muitos), têm versões diferentes, no que concerne às mudanças constantes nas linhas ou estrofes, ou até relacionados à autoria de um verso. Eu mesmo, já presenciei contradições de versos dentro da casa do próprio Lourival Batista, cuja autoria era atribuída a ele. Isso é literatura oral. Portanto, o mais importante, é que ao alterarem estrofes dos versos, nunca se fere o princípio básico do que o autor quis passar para os ouvintes. Na sextilha do poeta, João Paraibano: - Eu estava no sertão/ Balançando em minha rede/ Vendo o açude vazio/ Com dois rachões na parede/ E as abelhas no velório/ Da flor que morreu de sede. Pois bem, este açude, coitado! Nessas alturas, já vai com mais 100 rachões na parede...

Manoel Xudu tinha o olho biônico. Seus versos eram recheados de carinho, paixão, desde quando necessários. O mote que ele recebeu, foi o seguinte: Pode ir lá que está gravado/ O nome de Ana Maria:

O NOME DA MINHA AMADA
ESCREVI COM EMOÇÃO
NA PALMA DA MINHA MÃO
NO CABO DA MINHA ENXADA
NO BATENTE DA CALÇADA
E NO FUNDO DA BACIA
NA CASCA DA MELANCIA
MAIS GROSSA DO MEU ROÇADO
“PODE IR LÁ QUE ESTÁ GRAVADO
O NOME DE ANA MARIA.

E agora? Agora vamos terminar esse papo, com Manoel Xudu Kafkiano. Pôxa! E Xudu sabia o que era Surrealismo? Então, para os leitores mais engajados:

A PRISÃO ONDE ESTAVAM OS CONDENADOS
NA ANTIGA CIDADE DE BEZETA
ERA TODA PINTADA À TINTA PRETA
E TRANCADA POR FORTES CADEADOS
GUARNECIDA POR TRINTA E DOIS SOLDADOS
CADA UM COM DOIS METROS DE ALTURA
E ALÉM DE SE LER A AMARGURA
NO SEMBLANTE DAS MUDAS SENTINELAS
QUEM OLHASSE PRAS GRADES DAS JANELAS
TAVA VENDO O RETRATO DAS TORTURAS.



ÉSIO RAFAEL é poeta, professor e pesquisador da cultura popular esio.rafael@uol.com.br

FONTE: http://www.interpoetica.com/site/index.php?option=com_content&view=article&id=1094&catid=0

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

UM ANO NOVO PAI D'ÉGUA

Caba véi,

Segue os nossos desejos de Ano Novo pra essa cambada de amantes da poética nordestina!

Poeta Merlânio Maia


sexta-feira, 14 de novembro de 2014

CORAÇÃO DO BRASIL

CORAÇÃO DO BRASIL
Poeta Merlânio Maia

Bem aventurado és
Meu nordeste brasileiro
Pela tua independência
E pelo ato altaneiro
De viver com liberdade
De mudar a realidade
De quem já te escravizou
Na miséria degradante
E na torpeza infamante
Então teu grito ecoou!

Os maus políticos sabem
Da grandeza varonil
Do teu povo consciente
Que luta pelo Brasil
Da vileza do vampiro
Que no seu último suspiro
Desejava açambarcar
Do Brasil toda riqueza
Quando tua realeza
Chegou pra nos libertar!

Meu Nordeste és um oásis
És primor da natureza
És imenso libertário
Um Titã da realeza
Tuas belezas sublimes
E a grandeza que imprimes
Na arquitetura, na Arte,
Na música, na poesia,
Na prosa e gastronomia,
Teus gênios são Show à parte

Sem falar na Natureza
Que quando fez, caprichou!
Exagerou na beleza
As praias enfeitiçou
Teu povo é lindo e perfeito
Ninguém encontra defeito
Deus te fez lindo e gentil
Se cantam com amor profundo:
“Brasil coração do mundo!”
És coração do Brasil!

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

A SAGA DE EDUARDO CAMPOS – HOMEM QUE AMOU O BRASIL (Autoria Merlânio Maia)


A SAGA DE EDUARDO CAMPOS – HOMEM QUE AMOU O BRASIL
(Autoria Poeta Merlânio Maia)

Que Deus me dê a razão
A inspiração e o poder
De escrever sobre um homem
Que cumpriu com seu dever
Foi político e foi honrado,
Foi ético e foi adorado
Por toda a nossa nação
Eduardo Campos o homem
De virtudes que não somem
Teve nordestinação

Quem pode dizer que não
Ouviu falar neste homem
Cuja grandeza e a honra
Jamais do mundo se somem
Nesse Brasil brasileiro
Foi um grande timoneiro
Farol ante os pirilampos
Fez luz aonde passou
Na política e onde andou
Reinou: Eduardo Campos

No dia dez de Agosto
Do ano mil e novecentos
E sessenta e cinco dá-se
Em Recife o nascimento
Do Filho de Ana Arraes
E Maximiano os pais
Que lhe trouxeram ao mundo
Neto do grande Miguel
Arraes que teve um papel
De líder forte e fecundo

E isto influenciou
O nosso jovem Eduardo
Que percebeu que a política
Era boa e não um fardo
Que é preciso ser honrado
Quando é vocacionado
Na política verdadeira
E desde muito criança
Alimentou a esperança
Na política brasileira

Quando foi pra Faculdade
No curso de Economia
Ao Diretório Acadêmico
Eduardo presidia
Formou-se em Economia
E a vida encaminharia
Mas ele queria mais
Trocou o mestrado fora
Pra fazer campanha agora
Para o avô Miguel Arraes

Antes de 22 anos
Ele assumiu a Chefia
De Gabinete de Arraes
E em Pernambuco agia
Trabalhando em prol do povo
Herdou do avô muito novo
A política bacana
Criou a Secretaria
De Ciência e Tecnologia
Na Terra pernambucana

Com Renata Andrade Lima
Eduardo formou família
Veio Maria Eduarda
Mais velha e única filha
João, Pedro, José e Miguel
Eram seu mundo e seu Céu
Numa ligação sem par
Todos unidos e amados
Pelo amor iluminados
Era a família exemplar

Filiou-se ao PSB
Nesse ano de noventa
E elegeu-se deputado
Com votação opulenta
E o Prêmio Leão do Norte
Ganhou por ser o mais forte
Atuante deputado
Na Casa Legislativa
De Pernambuco está viva
Sua visão de Estado

No ano noventa e quatro
Eduardo se elegeu
Deputado Federal
A votação excedeu
133 mil votos
Eram fãs quase devotos
E na Câmara Federal
Ligeiro foi escolhido
Presidente do Partido
Mostrando força e ideal

Eduardo foi Ministro
E Lula entregou-lhe a pasta
De Ciência e Tecnologia
E de Lula não se afasta
Fez trabalho excelente
Com inovação pertinente
Ganhou respeito no mundo
Eduardo o nordestino
Cumpria com seu destino
E com o seu gênio fecundo

Candidatou-se com êxito
Pra governar o estado
De Pernambuco e Lula
O apoiou, foi bem votado
Seguindo os passos de Arraes
Herdeiro dos ideais
Do velho socialista
Na sua serenidade
Foi político de verdade
Eduardo o idealista

No ano 2006
Ganhou pra Governador
Do Estado de Pernambuco
Fez a gestão de valor
Pois logo foi reeleito
Fez um governo bem feito
Com lisura e competência
Sua gestão encerrou
Quando se candidatou
Buscando a Presidência

Uniu-se a Marina Silva
Com sua força varonil
Cantando alto e dizendo:
NÃO DESISTAM DO BRASIL!
VAMOS FAZER O PAÍS
MAIS FORTE E BEM MAIS FELIZ!
Foi seu canto poderoso
Qual o Uirapuru que canta
E o mundo inteiro levanta
Pra ouvi-lo silencioso!

Porém veio o dia treze
Do mesquinho mês de Agosto
Dia que Miguel Arraes
Viajou rumo ao Sol posto
Tão triste e terrível dia
De tragédia e profecia
E Eduardo viajava
Num avião como tantos
Já quase pousando em Santos
Mas a sorte lhe tragava

Chovia muito na hora
O piloto já a descer
Viu que não daria pouso
Tentou logo arremeter
Para subir retornou
Mas a máquina acovardou
O intento não conseguiu
Num prédio residencial
Bateu quebrou-se afinal
Daquela altura caiu

Caiu sobre as residências
Dos moradores de Santos
Vizinho de Guarujá
Provocando os desencantos
Morreram os tripulantes
Todos em poucos instantes
Uma tragédia malsã
E Eduardo Campos vai
Ao encontro de Deus-Pai
Nove horas da manhã

O país surpreendido
Chorou em luto terrível
Pois ali tinha perdido
Aquele líder incrível
A dor, o horror, o espanto
Fez o Brasil verter pranto
Lembrando os olhos azuis
E o seu semblante sereno
Com o seu coração moreno
Feito de amor e de luz

Seguiu Eduardo Campos
Deixando luz sobre a Terra
Dando um exemplo da Paz
Que tira a força da guerra
Deixando o país sofrendo
De uma dor que vai doendo
Na sua família linda
O país ficou mais pobre
Mas sua alma de nobre
É um exemplo que não finda!

Segue Eduardo Campos!
Pros espaços siderais
Vai receber as medalhas
Das honras espirituais
Pois cumpristes a missão
Com o teu jovem coração
E tua força juvenil
Pois fizeste a diferença
Tu que deixou a sentença:
NÃO DESISTAM DO BRASIL!

E nós não desistiremos
Pois cremos neste ideal
De ver nossa Terra amada
Na corte Internacional
Como este país gigante
Que teve por um instante
Um homem de sonhos tais
Que nasceu neste país
Viveu, amou, foi feliz
Foi o Eduardo da Paz!

A tragédia nos maltrata
A história perdeu um nobre
A família perde um pai
O Brasil ficou mais pobre
Perdeu grande nordestino
Que reinou como destino
Política foi seu afã
E a convite de Deus
Seguiu os caminhos seus
Rumo a estrela da manhã!

terça-feira, 12 de agosto de 2014

A CHEGADA DE ARIANO SUASSUNA NO CÉU










A CHEGADA DE ARIANO SUASSUNA NO CÉU
Autores: Klévisson Viana e Bule-Bule

Nos palcos do firmamento
Jesus concebeu um plano
De montar um espetáculo
Para Deus Pai Soberano
E, ao lembrar de um dramaturgo,
Mandou buscar Ariano.

Jesus mandou-lhe um convite,
Mas Ariano não leu.
Estava noutro idioma,
Ele num canto esqueceu,
Nem sequer observou
Quem foi que lhe escreveu.

Depois de um tempo, mandou
Uma segunda missiva.
A secretária do artista
Logo a dita carta arquiva,
Dizendo: — Viagem longa
A meu mestre não cativa.

Jesus sem ter a resposta
Disse torcendo o bigode:
— Eu vejo que Suassuna
É teimoso igual a um bode.
Não pode, mas ele pensa
Que é soberano e pode!

Jesus, já perdendo a calma,
Apelou pra outro suporte.
Para cumprir a missão,
Autorizou Dona Morte:
— Vá buscar o escritor,
Mas vê se não erra o corte!

A morte veio ao País
Como turista estrangeiro,
Achando que o Brasil
Era só Rio de Janeiro.
No rastro de Suassuna,
Sobrou pra Ubaldo Ribeiro.

Porém, antes de encontrá-lo,
Sofreu um constrangimento
Passando em Copacabana,
Um malfazejo elemento
Assaltou ela levando
Sua foice e documento.

A morte ficou sem rumo
E murmurou dessa vez:
— Pra não perder a viagem
Vou vender meu picinez
Para comprar outra foice
Na loja de algum chinês.

Por um e noventa e nove
A dita foice comprou.
Passando a mão pelo aço,
Viu que ela enferrujou
E disse: — Vai essa mesma,
Pois comprar outra eu não vou!

A morte saiu bolando,
Sem direção e sem tino,
Perguntando a um e a outro
Pelo escritor nordestino,
Obteve informação,
Gratificando um menino.

Ao encontrar João Ubaldo,
Viu naufragar o seu plano,
Se lembrando da imagem
Disse: — Aqui há um engano.
Perguntou para João
Onde é que estava Ariano.

Nessa hora João Ubaldo,
Quase ficando maluco,
Tomou um susto arretado,
Quando ali tocou um cuco,
Mas, gaguejando, falou:
—Ele mora em Pernambuco!

A morte disse: — Danou-se
Dinheiro não tenho mais
Para viajar tão longe,
Mas Ariano é sagaz.
Escapou mais uma vez,
Vai você mesmo, rapaz!

Quando chegou lá no Céu
Com o escritor baiano,
Cristo lhe deu uma bronca:
— Já foi baldado o meu plano.
Pedi um da Paraíba
E você trouxe um baiano.

João Ubaldo é talentoso,
Porém não escreve tudo.
“Viva o Povo Brasileiro”
É sua obra de estudo,
Mas quero peça de humor,
Que o Céu tá muito sisudo.

Foi consultar os arquivos
Pra ressuscitar João,
Mas achou desnecessário,
Pois já era ocasião
Pra ele vir prestar contas
Ali na Santa Mansão.

Jesus olhou para a Morte
E disse assim: — Serafina,
Vejo não és mais a mesma.
Tu já foste mais malina,
Tá com pena ou tá com medo,
Responda logo, menina?!

— Jesus, eu vou lhe falar
Que preciso de dinheiro.
Ariano mora bem
No Nordeste brasileiro.
Disse o Cristo: —Tenho pressa,
Passe lá no financeiro!

— Só faço que é pra o Senhor.Pra outro, juro não ia.
Ele que se conformasse
Com o escritor da Bahia.
Se dependesse de mim,
Ariano não morria.

A morte na internet
Comprou passagem barata.
Quase morria de susto
Naquela viagem ingrata.
De vez em quando dizia:
— Eita que viagem chata!

Uma aeromoça lhe trouxe
Duas barras de cereais.
Diz ela: — Estou de regime.
Por favor, não traga mais,
Porque se vier eu como,
Meu apetite é voraz!

Quando chegou no Recife,
Ficou ela de plantão
Na porta de Ariano
Com sua foice na mão,
Resmungando: — Qualquer hora
Ele cai no alçapão!

A morte colonizada,
Pensando em lhe agradar,
Uma faixa com uma frase
Ela mandou preparar,
Dizendo: “Welcome Ariano”,
Mas ele não quis entrar.

Vendo a tal faixa, Ariano
Ficou muito revoltado.
Começou a passar mal,
Pediu pra ser internado
E a morte foi lhe seguindo
Para ver o resultado.

Eu não sei se Ariano
Morreu de raiva ou de medo.
Que era contra estrangeirismos,
Isso nunca foi segredo.
Certo é que a morte o matou
Sem lhe tocar com um dedo.

Chegou no Céu Ariano,
Tava a porta escancarada.
São Pedro quando o avistou
Resmungando na calçada,
Correu logo pra o portão,
Louvando a sua chegada.

Um anjinho de recado
Foi chamar o Soberano,
Dizendo: – O Senhor agora
Vai concretizar seu plano.
São Pedro mandou dizer
Que aqui chegou Ariano.

Jesus saiu apressado,
Apertando o nó da manta
E disse assim: — Vou lembrar
Dessa data como santa
Que a arte de Ariano
Em toda parte ela encanta.

São Pedro lá no portão
Recebeu bem Ariano,
Que chegou meio areado,
Meio confuso e sem plano.
Ao perceber que morreu,
Se valeu do Soberano.

Com um chapelão de palha
Chegou Ascenso Ferreira,
O grande Câmara Cascudo,
Zé Pacheco e Zé Limeira.
João Firmino Cabral
Veio engrossar a fileira.

E o próprio João Ubaldo
(Que foi pra lá por engano)
Veio de braços abertos
Para abraçar Ariano.
E esse falou: – Ubaldo,
Morrer não tava em meu plano!

Logo chegou Jorge Amado
E o ator Paulo Goulart.
Veio também Chico Anysio
Que começou a contar
Uma anedota engraçada
Descontraindo o lugar.

Logo chegou Jesus Cristo,
Com seu rosto bronzeado.
Veio de braços abertos,
Suassuna emocionado
Disse assim: — Esse é o Mestre,
O resto é papo furado!

Suassuna que, na vida,
Sonhou em ser imortal,
Entrou para Academia,
Mas percebeu, afinal,
Que imortal é a vida
No plano celestial.

Jesus explicou seus planos
De fazer uma companhia
De teatro e ele era
O escritor que queria
Para escrever suas peças,
Enchendo o Céu de alegria.

Nisso Ariano responde:
— Senhor, eu me sinto honrado,
Porém escrever uma obra
É serviço demorado.
Às vezes gasto dez anos
Para obter resultado.

Nisso Jesus gargalhou
E disse: — Fique à vontade.
Tempo aqui não é problema,
Estamos na eternidade
E você pode criar
Na maior tranquilidade.

Um homem bem pequenino
Com chapeuzinho banzeiro,
Com um singelo instrumento,
Tocou um coco ligeiro
Falando da Paraíba:
Era Jackson do Pandeiro.

Logo chegou Luiz Gonzaga,
Lindu do Trio Nordestino,
E apontou Dominguinhos
Junto a José Clementino
E o grande Humberto Teixeira,
Raul e Zé Marcolino.

Depois chegou Marinês
Com Abdias de lado
E Waldick Soriano,
Com um vozeirão impostado,
Cantou “Torturas de Amor”,
Como sempre apaixonado.

Veio então Silvio Romero
Com Catulo da Paixão,
Suassuna enxugou
As lágrimas de emoção
E Catulo, com seu pinho,
Cantou “Luar do Sertão”.

Leandro Gomes de Barros
Junto a Leonardo Mota,
Chegou Juvenal Galeno,
Otacílio Patriota.
Até Rui Barbosa veio
Com título de poliglota.

Chegou Regina Dourado,
Tocada de emoção,
Juntinho de Ariano,
Veio e beijou sua mão
E disse: — Na sua peça
Quero participação.

Ariano dedicou-se
Àquele projeto novo.
Ao concluir sua peça,
Jesus deu o seu aprovo
E a peça foi encenada
Finalmente para o povo.

Na peça de Ariano
Só participa alma pura.
Ariano virou santo,
Corrigiu sua postura.
Lá no Céu ganhou o título
Padroeiro da cultura.

Os artistas que por ele
Já nutriam grande encanto
Agora estando em apuros,
Residindo em qualquer canto,
Lembra de Santo Ariano
E acende vela pro santo.

Ariano foi Quixote
Que lutou de alma pura.
Contra a arte descartável
Vestiu a sua armadura
Em qualquer dia do ano
Eu digo: viva Ariano
Padroeiro da Cultura!

FIM

sexta-feira, 23 de maio de 2014

SOBRE SONETO um improviso do poeta DIMAS BATISTA:



SOBRE SONETO um improviso de DIMAS BATISTA:

Eu muito admiro o poeta da praça,
Que passa dois anos fazendo um soneto,
Depois de três meses acaba um quarteto,
Com todo esse tempo inda fica sem graça.
Com tinta e papel o esboço ele traça,
Contando nos dedos pra metrificar,
Que noites de sono ele perde a estudar,
Pra no fim mostrar tão minguado produto,
Pois desses eu faço dois, três, num minuto,
Cantando galope na beira do mar.