Tudo que é pé de conversa tem o seu dedo de prosa!

Este recanto tem a obra dos maiores Poetas do mundo!

domingo, 18 de novembro de 2007

A CHEGADA DE LAMPIÃO NO INFERNO - José Pacheco



Um cabra de Lampião
Por nome Pilão Deitado
Que morreu numa trincheira
Um certo tempo passado
Agora pelo Sertão
Anda correndo visão
Fazendo mal assombrado

Foi quem me trouxe a notícia
Que viu Lampião chegar
No Inferno e nesse dia
Faltou pouco pra virar
Incendiou-se o mercado
Morreu tanto cão queimado
Que faz pena até contar

Morreu o pai de Caim
A mãe de Forrobodó
Cem netos de Parafuso
Um cão chamado Cotó
Escapuliu boca insossa
E uma moleca inda moça
Quase queimava o totó

Morreram cem negros velhos
Que não trabalhavam mais
Um cão chamado Traz-cá
Vira-volta e Capataz
Tromba-suja e Bigodeira
Um cão chamado Goteira
Cunhado de Satanás

Vamos tratar da chegada
Quando Lampião bateu
Um moleque ainda moço
No portão apareceu
- Quem é você cavalheiro?
- Moleque sou cangaceiro!
Lampião lhe respondeu

- Moleque não. Sou vigia
E não sou seu pariceiro
E você aqui não entra
Sem dizer quem é primeiro
- Moleque abra o portão
Saiba que sou Lampião
Assombro do mundo inteiro

Então esse tal vigia
Que trabalha no portão
Dá pisa que voa cinza
Não procura distinção
O negro escreveu não leu
A macaíba comeu
Ali não se usa perdão

O vigia disse assim:
- fique fora que eu entro
Vou conversar com o chefe
No gabinete do centro
Por certo ele não lhe quer
Mas conforme o que disser
Eu levo o senhor pra dentro

Lampião disse: -Vá logo
Quem conversa perde a hora
Vá depressa e volte logo
Eu quero pouca demora
Se não me derem o ingresso
Eu viro tudo azavesso
Toco fogo e vou-me embora

O vigia foi e disse
A Satanás no salão
- Saiba vossa senhoria
Que aí chegou Lampião
Dizendo que quer entrar
E eu vim lhe perguntar
Se dou-lhe o ingresso ou não

- Não senhor! Satanás disse
Vá dizer que vá embora
Só me chega gente ruim
Eu ando muito caipora
Eu já estou com vontade
De botar mais da metade
Dos que tenho aqui pra fora

Lampião é um bandido
Ladrão da honestidade
Só vem desmoralizar
A nossa propriedade
E eu não vou procurar
Sarna para me coçar
Sem haver necessidade

Disse o vigia: - Patrão,
A coisa vai arruinar
Eu sei que ele se dana
Quando não puder entrar
Satanás disse: - Isso é nada
Convide aí a negrada
E leve os que precisar

Leve cem dúzias de negros
Entre homens e mulher
Vá na loja de ferragem
Tire as armas que quiser
É bom avisar também
Pra vir os negros que tem
O compadre Lucifer

E reuniu-se a negrada
Primeiro chegou Fuxico
Com um bacamarte velho
Gritando por Cão de Bico
Que trouxesse o pau da prensa
E fosse chamar Tangença
Em casa de Maçarico

E depois chegou Cambota
Endireitando o boné
Formigueiro e Trupizupe
E o Crioulo Queté
Chegou Bagé e Pacaia
Rabisco e Rabo de Saia
E foram chamar Bazé

Veio uma diaba moça
Com a caçola de meia
Puxou a vara da cerca
Dizendo: - A coisa ta feia
Hoje o negócio se dana
E gritou: - Eita baiana
Agora a ripa vadeia!

E saiu a tropa armada
Em direção ao terreiro
Com facão, pistola e faca
Cravinote, granadeiro,
Uma negra também vinha
Com a trempe da cozinha
E o pau de bater tempeiro

Quando Lampião deu fé
Da tropa negra encostada
Disse: - Só na Abissínia
Ô tropa preta danada
O chefe do batalhão
Gritou de armas na mão
Toca-lhe fogo, negrada!

Nessa hora ouviu-se os tiros
Que só pipoca no caco
Lampião pulava tanto
Que parecia um macaco
Tinha um negro nesse meio
Que durante o tiroteio
Brigou fumando tabaco

Acabou-se o tiroteio
Por falta de munição
Mas o cacete batia
Negro embolava no chão
Pau e pedra que achavam
Era o que as mãos pegavam
Sacudiam em Lampião

Chega atrás um armamento
Assim gritava o vigia
Traz a pá de mexer doce
Lasca os ganchos de Caria
Traz um bilro de Macau
Corre e vai buscar um pau
Na cerca da padaria

Lucifer com Satanás
Vieram olhar do terraço
Todos contra Lampião
De cacete faca e braço
O comandante no grito
Dizia: - Briga bonito
Negrada, chega-lhe o aço!

Lampião pode apanhar
Uma caveira de boi
Sacudiu na testa dum
Que só pode dizer: Ôi!
Ainda correu dez braças
Caiu segurando as calças
Mas eu não sei porque foi

Estava travada a luta
Mais de uma hora fazia
A poeira cobria tudo
Negro embolava e gemia
Porém Lampião ferido
Ainda não tinha sido
Devido a grande energia

Lampião pegou um xêxo
E rebolou-o num cão
Mas o que? Arrebentou
A vidraça do oitão
Saiu um fogo azulado
Incendiou o mercado
E o armazém de algodão

Satanás com esse incêndio
Tocou um búzio chamando
Correram todos os negros
Que se achavam brigando
Lampião pegou o olhar
Não vendo com quem brigar
Também foi se retirando

Houve grande prejuízo
No inferno nesse dia
Queimou-se todo o dinheiro
Que Satanás possuía
Queimou-se o livro de pontos
Perdeu-se vinte mil contos
Somente em mercadoria

Reclamava Lucifer
- Horror maior não precisa
Os anos ruins de safra
Agora mais essa pisa
Se não houver bom inverno
Tão cedo aqui no inferno
Ninguém compra uma camisa

Leitores vou terminar
Tratando de Lampião
Muito embora que não possa
Vos dar a explicação
No inferno não ficou
No céu também não chegou
Por certo está no Sertão

Quem duvidar desta história
Pensar que não foi assim
Querer zombar do meu sério
Não acreditando em mim
Vá comprar papel moderno
Escreva para o inferno
Mande saber de Caim






3 comentários:

Anônimo disse...

muito boa, obrigado deus por estar vivo e poder ler essa linda poesia.
elzon_jr

Renan Freitas disse...

Sou do Rio Grande do Sul e tenho muito apreço pela cultura nordestina, deixo aqui o link dessa musica (muito boa por sinal!)

http://www.youtube.com/watch?v=4ldSot7OLeU


Antônio José disse...

Quando eu era criança adolescente lia muuuuuuito esses codeis