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Este recanto tem a obra dos maiores Poetas do mundo!

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O Soldado Jogador

O Soldado Jogador Leandro Gomes de Barros


Era um soldado francês
Que se chamava Ricarte
Jogador de profissão
E nunca foi numa parte
Que não trouxesse no bolso
O resultado da arte.

Os franceses nesse tempo
Tinham por obrigação
O militar ou civil
Seguir religião
O Papa deitava a lei
Botava em circulação.

Ricarte, soldado velho
Com trinta anos de tarimba
Aonde ele achava jogo
De lasquinê ou marimba
Dizia logo: - Eu vou ver
Água na minha cacimba!

Um dia faltou-lhe o soldo
Pôs-se Ricarte a pensar
Onde podia haver jogo
Que ele pudesse jogar
Era Domingo e a missa
Não havia de tardar.

Dinheiro não tinha um "xis"
A crédito ele nem falava,
Pois o soldado francês
Na taberna onde comprava
Só pegava no objeto
Porém depois que pagava.

Trocou entrada da missa
Veio o sargento chamá-lo
Ricarte ainda pediu
Para ele dispensá-lo
Porém o sargento disse:
- Sou obrigado a mandá-lo!

Ricarte foi para a missa
Com grande constrangimento,
Era obrigado a cumprir
A lei do seu regimento
Mas não podia afastar
O jogo do pensamento.

O soldado na igreja
Chegou, de ajoelhou
Trouxe no bolso da blusa
Um baralho ele tirou
E endireitando as cartas
Uma patota formou.

Não viu que tinha atrás dele
Um sargento ajoelhado
E ali observou
Tudo quanto foi passado
E disse: - Depois da missa
Você está preso, soldado!

Efetuando a prisão
E seguiu no mesmo instante
Foi com o soldado preso
A casa do comandante
Dizendo ter cometido
Um crime muito agravante

- Pronto, senhor comandante
Está aqui preso um soldado,
Que foi ao templo ouvir missa
Lá estava ajoelhado
Encamassando um baralho
Que traz no bolso guardado

Perguntou-lhe o comandante:
- Quem deu-te esta criação?
Disse Ricarte: - Senhor,
Se ouvisse minha razão
Eu lhe dizia o motivo
Que existe pra esta ação.

- Que motivo tem você
Sabendo que é proibido
Ignora que o jogo
No exército é abolido?
Disse o soldado: - Meu jogo
Muda muito de sentido

- Muda de sentido, como?
Disse Ricarte: - Eu direi;
- Pois explique como é,
Porque eu o ouvirei,
Depois da explicação
O solto ou castigarei!

Disse o soldado: - Primeiro,
É preciso confessar
Que ganho 1 soldo mesquinho
E esse soldo não dar
Para eu comprar um livro
Para na missa rezar!

- Por isso compro um baralho
E rezo nele constante.
- Que reza num baralho?
Perguntou o comandante,
- Há tudo da escritura
Velha, nova, assim por diante...

Então disse o comandante:
- Você vem errado à mim.
Disse o soldado: - Eu explico,
Do princípio até o fim;
Como é essa oração?
Disse o soldado: - É assim:

- Por exemplo: a carta ás
Que tem um ponto somente,
Faz recordar que existe
Um só Deus Onipotente
Quando chamamos por Ele
O encontramos presente.

- Quando eu pego no dois
Ali premedito eu
Que em duas tábuas de pedra
O Criador escreveu
Quando em sarças ardentes
A Moisés apareceu.

- Quando eu pego no três
Me recordo a divinidade
Por exemplo: as três pessoas
Da Santíssima Trindade
Que nós todos conhecemos
O Espírito, o filho e o Padre

- Os 4 lembram-me as quatro
Marias de Nazaré
Que foram Maria Alfa
E Maria Salomé
Madalena e a Virgem Pura
Esposa de São José

- Os cinco me faz lembrar
Aquele dia de fel
As cinco chagas de Cristo
Feitas por mão tão cruel
Que matou crucificado
O filho de Deus de Israel.

- Quando eu pego em 6 de ouro
Faço premeditação
Seis dias o Senhor gastou
Na obra da Criação
Formou tudo quanto existe
Sem em nada por a mão.

- Os 7 lembram-me a hora
Negra, triste, amargurada
Os sete passos de Cristo
Em sua paixão sagrada
Com sete espadas de dores
A Mãe de Deus foi cravada.

- Nos oito, vejo as pessoas
Que no Dilúvio escaparam
Noé, a mulher, três filhos
E três noras se salvaram
O resto as águas cobriram
Onde todos se afogaram.

- Quando eu pego nos nove
Vejo na imaginação
Os nove meses ditosos
Da divina encarnação
Que Jesus passou no ventre
Da Virgem da Conceição.

Quando eu pegou no rei
Me lembro do Rei da Glória
O ente mais poderoso
Que já vimos na história
Que não precisa soldado
Para alcançar a vitória.

Quando eu pego na sota
Me vem lembrança daquela
Que toda Jerusalém
Enriqueceu só com ela
Aquela que deu a luz

Ficando a mesma donzela.
Eis aí, meu comandante
As razões do seu soldado
Não posso comprar um livro
Meu soldo e´muito mirrado
Compro um baralho onde rezo
Porque só custa um cruzado.

Então disse o comandante:
- Em todas cartas falaste
Te esqueceste do Valente?
Foi porquê não te lembraste?
Não é também uma carta,
Porquê não apresentaste?

Disse o soldado: essa carta
É uma carta ruim,
Eu quando compro um baralho
Tiro ela e dou-lhe fim
Tem traços deste sargento
Que denunciou de mim.

Disse o comandante a ele:
Ricarte tu és passado
Teus vinte anos de praça
Foi tempo bem empregado,
Vou te passar a sargento
E dou-te o soldo dobrado.




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